RAINHA DA VAQUEJADA
RAINHA DA
VAQUEJADA
por José Plínio de Oliveira*
NOS MESES QUE ANTECEDEM a “festa da
vaquejada” ocorrem intensas mobilizações sociais em torno da escolha da Rainha da Vaquejada, fabricada entre as
jovens brancas ditas mais bonitas, elegantes e sensuais da cidade. Obviamente
que a moça terá que ser filha da Aristocracia Dominante, para melhor abrilhantar
o evento e representar a sociedade. Em tais ocasiões, se a escolha de uma moça
da sociedade para ocupar uma representação simbólica e transitória de “Rainha,
Princesa, Miss, Musa e etc.” depender de votos ou de jurados, é dito aqui que a
família interessada compra votos, quando é o caso, inclusive de crianças e adolescentes,
alunos de escolas regulares; pasmem; e suborna jurados adultos, porque os fins justificam os meios. Daí o
convencimento de que um sistema de Educação Escolar manipulado por uma
sociedade dominadora, provinciana, arcaica, corrupta, marginalizadora e
ignóbil, ao invés de formar cidadãos e cidadãs, leva-os à dependência química,
ao narcotráfico, à prostituição infanto-juvenil, ao banditismo, à exclusão.
Portanto, uma jovem pobre e negra ainda que muitíssimo mais bela, elegante, esplendida
e sensual que a representante branca, não teria chance alguma de ser escolhida em
face dos interesses obscuros que circundam o corpo da Rainha, o sexo e a bunda da Rainha.
Tudo em nome da Sociedade Aristocrática.
No Brasil Aristocrático, tal como assevera o próprio nome, a sociedade é
uma organização, uma confraria de sócios privilegiados que participam das
benesses do Poder Constituído do Estado, submetendo a sua aparelhagem
ideológica para se locupletarem com a coisa pública, saquearem os cofres
públicos, prostituírem a Lei, exorbitarem impunidades e opulências, explorarem
e vilipendiarem a massa trabalhadora pobre, execrarem e ridicularizarem a
pessoa do excluído, por exemplo, o Peão.
Na mesma ocasião da “escolha” da Rainha, também é selecionado um Peão; prefigurando uma espécie de
troglodita grotesco, manipulado pelo Poder Dominante para contracenar e desfilar
com a jovem em cima de um Trio Elétrico.
Nesta perspectiva de estudo, há o convencimento de que o Peão representa o contrassenso espúrio, o oposto absoluto à
exaltação da Beleza Feminina Branca. Daí se depreende que o brilho exuberante
da Rainha da Vaquejada resplandece
com maior intensidade opondo-se à escuridão absoluta do Peão, que em cima do Trio
Elétrico é o escárnio da classe trabalhadora que subsiste na escuridão
humana; explorada, escravizada, vilipendiada e trucidada nas Fazendas de Gado
da sociedade dominante; para satisfazer às suas taras abjetas. Dessa forma, o Peão ocupa o lugar do “orango
valetudinário” de que trata Euclides da Cunha em sua obra prima Os sertões.
Nestes sertões do território baiano, a exploração do homem pelo homem é
crucial. Mas a execração, o preconceito e o ódio com que o trabalhador pobre, o
negro e o índio são restringidos à sub condição de menos-valia, tornam-se dissimulados e aparentemente atenuados pelo
cinismo endêmico e leviano com que a pobreza é vilipendiada pela sociedade dominante.
Portanto, o cinismo leviano é o pano de
fundo que oculta toda a crueldade arbitrada pelas Potestades do Poder à
pessoa humana do pobre; sob a leviandade da “ternura amiga”, do agrado fácil e
do apadrinhamento utilitário; o que é perigoso inclusive porque o sujeito
explorado não consegue vislumbrar a face hedionda do preconceito e do ódio de
que é vítima aqui no Estado da Bahia. Nas regiões Sul e Sudeste do Brasil, as
faces do ódio, do preconceito e da exclusão humana são mais visíveis,
principalmente contra os nordestinos flagelados que migram para aquelas regiões,
mas na Bahia não. Aqui é difícil identificar onde está o ódio e o preconceito
hediondos. O cinismo cuida de ocultá-lo muitas vezes sob o disfarce da
“amizade” da parte do explorador para com o explorado. Portanto, o “orango”
somente é “valetudinário” quando submetido pela sociedade dominante, inclusive
para execuções dos crimes de mando com que a Aristocracia não pode sujar-se. Na
maioria das vezes crimes de mando perpetrados por sujeitos pobres manipulados contra
outros pobres. Porque “se o patrão manda, tem de fazê”. É a lei do manda quem pode e obedece quem tem juízo,
que aqui no Estado da Bahia em muitas situações extrapola as demandas da
cultura da truculência e da violência. Dessa forma, na mesma proporção em que o
Peão, assim como o jagunço, é um
corpo dócil para a Aristocracia Troglodita, contra o povo oprimido é um monstro
covarde. Principalmente contra mulheres, crianças e idosos pobres. Mas,
todavia, ainda convém ressaltar que no interesse da Festa da Vaquejada, o Peão é um “hércules-quasímodo”, opondo
feiura horrenda à beleza resplandecente da Rainha
da Vaquejada. Portanto, nos festejos mais grotescos do sertão baiano, o Peão que contracena com a menina linda
pode vir a ser tentado a presumir que os aplausos da galera também são para ele; até pelos delitos que perpetra a mando
do Crime Organizado Aristocrático, que se sobrepõe ao Crime Organizado Oficial.
Pobre Peão! Neste contexto cultural,
Beleza é uma exaltação de Poder, uma categoria superior e requintada. E também
uma forma de exaltação da exuberância estética em oposição à miséria construída.
Beleza, charme, glamour, sensualidade, sexualidade, lascívia e
eroticidade desregrada também são requisitos indispensáveis para a escolha da Rainha elegante e rica. Portanto, familiares,
o grupo político a que pertence esses familiares, amigas e amigos mais
próximos, pretendentes tarados, torcidas organizadas e admiradores fanatizados mobilizam-se
em prol da escolhida. Entretanto, cabe à família maior empenho e ao grupo
político maior investimento no corpo da moça. Nesse contexto de vaquejada, para
a família da menina, o palco do Trio
é uma vitrine em que o corpo é exposto como mercadoria e objeto do desejo de
torpezas sexuais e taras inomináveis; visando a interesses de pretendentes
ricos e poderosos. Literalmente, a família põe a “menina” à venda, e nessas
ocasiões, a avareza, a mediocridade, o provincianismo, o cinismo, a
prepotência, a truculência, a arrogância, a leviandade e a obscenidade atingem
a proporções astronômicas; sem precedentes em nenhum outro lugar do mundo. E a
Vergonha oprime ao ser pensante, esmagando-o como se a Cordilheira dos Andes
deitasse-lhe sobre os ombros. Pensar a Bahia na sua dimensão sociocultural às
vezes é gratificante, outras vezes é estimulante, outras vezes é constrangedor,
outras tantas vezes é um exercício Espiritual. Porém, quem quer que se atreva a
pensar e a estudar culturas do Sertão da Bahia, jamais deve ter a estúpida,
ingênua e ridícula pretensão de ser perfeccionista, paladino da moralidade,
defensor da honra da família, militante de valores civilizados, entusiasta da
grandeza do ser humano ou coisa que o valha. Aqui, principalmente aqui no
sertão baiano cultura é uma realidade a ser estudada com profícua resignação,
respeito e inveterada curiosidade. Porque Cultura é Cultura e, data vênia, indiscutível.
A discussão sobre cultura e corpos dóceis nesta parte do Nordeste do
Brasil e Sertão da Bahia há de demandar estudos meticulosos, principalmente, o
debate sobre o corpo-objeto na perspectiva de interesses que, na maioria das
vezes, têm início nos ambientes familiares. Na verdade, o corpo atraente da
mulher bonita aqui no interior baiano suscita várias especulações estéticas e
pretensões mirabolantes, inclusive mercantilistas. Nos contextos familiares, o
olhar materno é o primeiro a realizar a leitura estética do corpo de uma filha
ainda na primeira infância, e a perceber dotes físicos que indiciam beleza,
elegância sensualidade e sexualidade. Todos esses dotes podem ser capitalizados
com objetivos políticos e financeiros. Dessa forma, a Mãinha desenvolve uma espécie de incestuosidade simbólica e passa a
trabalhar o corpo da criança, estimulando e acentuando todos os requintes de
exaltação exacerbada da beleza sensual e da plena liberdade sexual já na
adolescência. Algumas mamães, por exemplo, costumam declarar abertamente:
“Minha filha vai fazer tudo que não me deixaram fazer!” De fato, em muitos
casos, projetada para a vanguarda da libertinagem desregrada pela própria
genitora frustrada, oprimida e recalcada em seus desejos da juventude, a filha
moça muitas vezes é levada à promiscuidade sexual, às drogas, à contaminação
com HIV e até ao crime. Tudo em decorrência da exploração do seu corpo, da
mercantilização do seu corpo.
Na medida em que o corpo da
menina-moça vai se desenvolvendo e as formas sensuais vão se tornando
exponenciais e sedutoras, a mamãe faz dela o seu alter ego, projetando-lhe todas
as subjetividades, sonhos, afetividades, taras recalcadas e desejos que lhes
foram reprimidos quando na mesma idade. O problema é que a menina passa a viver
sob os ônus de uma dominação dissimulada, perdendo a primazia da infância e
abdicando da sua autonomia individual. Por exemplo, é a mãe quem escolhe as
roupas da moda que a moça deve usar; quase todas atrevidas e provocantes:
shorts jeans minúsculos e estraçalhados como se um tigre de Bengala a houvesse
atacado, deixando somente fragmentos de tecidos que mal lhe cobrem o sexo; blusinhas
exíguas que apenas lhe guardam os bicos dos seios. E quando a genitora “zelosa” sai
com a filha às ruas é como se exibisse um troféu, uma Vênus de Milo, uma Musa. E vai a mãe orgulhosa em face dos olhares que
se projetam para o corpo da filha.
A mamãe se sente de “alma lavada”,
vingada de todas as tiranias de que foi vítima na mocidade. Exibir uma filha,
linda, cheirosíssima, de corpo escultural, semidespida, que dirige o seu
próprio carro, pilota a sua própria moto, vai a motéis com o namorado, passa
noites fora de casa sem ter que dar qualquer satisfação a ninguém, e saindo às ruas
é alvo de olhares cobiçosos, tarados, lascivos, insaciáveis; para a mamãe é uma
grande vitória!
Academias, cursos de balés, salões
de estética e institutos de beleza passam a ser compromissos inadiáveis para
favorecer à ideologia do corpo perfeito que
a sociedade impõe à mulher. Aliás, a higidez da sociedade vem se refletindo na
cultura do Bumbum Perfeito, que vem condicionando mulheres,
inclusive esclarecidas, a submeterem-se em espaços inadequados a intervenções cirúrgicas
com aplicações de substâncias tóxicas de uso industrial em seus corpos, visando
a melhorar a performance do Bumbum.
Mulheres jovens têm vindo a óbito e outras têm ficado com sequelas graves. Não
é por isso que a mulher deva deixar de se cuidar e de ser bela – resguardados
os devidos cuidados – até para sentir-se bem espiritualmente consigo mesma. É
óbvio. O grau mais elevado da Beleza Feminina é o sentir-se bem com o seu
espírito e o seu corpo de mulher.
A mulher não tem a obrigação de sacrificar-se
para satisfazer às taras repugnantes e abjetas da sociedade, nem de aceitar ideologias
execrandas que deplorem o seu corpo como mero objeto descartável. A pravidade
com que essas ideologias nefastas passam a execrar e a abominar o sexo da
mulher, por exemplo, tendem a torná-lo írrito. Porque, também, quando a
sociedade é exigente e implacável para com o corpo da mulher moderna, passa
sistematicamente a anula-la e a ser um peso na vida dela, impedindo que a sua
beleza interior – que transcende a beleza física – seja percebida, admirada e
valorizada. Aliás, é a Beleza Interior que deve refletir-se no corpo da mulher,
e não o contrário. Assim como a
inteligência, o pensamento e a perspicácia deviam refletir-se na aura da Mulher.
Nesta perspectiva de estudo, algumas personalidades femininas brasileiras nos legaram
valores inesquecíveis. Para não citar legiões de Mulheres Exponenciais, reflitamos
sobre Chica da Silva, Clementina de Jesus, Carolina Maria de Jesus, Luz del
Fuego, Tia Ciata, Iara Iavelberg, Dona Ivone Lara, Iolanda Penteado, Dona Zica,
Nara Leão, por exemplo. Mulheres que primaram pela Beleza Interior, sem jamais
prescindir da Beleza Física. Souberam ser Musas, eximindo-se de qualquer forma de
escravidão sensual e sexual, para elevar a liberdade feminina à sua mais plena exaltação
empoderada.
Mas, se a Mulher Musa contemporânea
se acha em um espaço menos exigente e de aparente descontração; em casa
assistindo TV por exemplo; lembra-se de pegar uma mecha dos cabelos lindos,
limpos, longos e sedosos para perceber o aroma. Caso não seja esse o desejado
pelos outros, tem que ir correndo para o salão de beleza, porque o corpo tem
que estar sempre em ponto-de-bala na
sua inteireza absoluta, para não se descuidar de atender a olhares, olfatos e
tatos maliciosos, sequiosos, voluptuosos, lascivos e obscenos, tanto da parte
de homens quanto de outras mulheres. Porque a Musa contemporânea está
encarcerada na masmorra do desejo alheio. Logo, a vida da Musa contemporânea é
uma Luta! Assim como foram, de forma inversa, as restrições macabras arbitradas
às mulheres de tempos passados. Antes da Revolução
Sexual.
De fato, em tempos passados e em
nome de uma moral suspeita e obscura, famílias tradicionais do interior da
Bahia infligiram restrições draconianas a suas filhas. Estas sofreram muito sob
os ônus imperativos do poder patriarcal machista. Questões de namoros ou de
meras subjetividades afetivas por parte da moças “de família”, à margem dos
interesses oligárquicos de pais autoritários, eram punidas e restringidas com mãos de ferro. Eram eles que escolhiam
namorados, noivos e maridos para suas filhas; desde que fossem atendidas as
suas expectativas, financeiras, políticas e de poder. Inúmeras moças
bem-nascidas foram internadas à força em colégios de freiras pelo simples fato
de insinuarem quebrar paradigmas fossilizados de famílias aristocráticas.
Outras tantas cometeram suicídios.
Os internamentos para moças
tornaram-se política coercitiva tão arbitrária que o Padre Jesuíta Gabriel
Malagrida, que trabalhou no Brasil em pleno século XVIII, inclusive em Água
Fria e Tucano, no Sertão da Bahia, planejou e desenvolveu construções de Casas de Recolhimento Para Moças em
Salvador e em outras cidades do Norte, para livrá-las de imaginações tentadoras.
Imagine uma filha do coronel José Américo Camelo de Sousa Velho, primo, amigo e
correligionário do barão de Jeremoabo, já no século XIX, deixar transpirar
simpatia por um jovem vaqueiro de uma das Fazendas do pai! Entretanto, não
obstante os discursos morais ultra conservadores, os homens poderosos desta
terra mantinham relações com as suas teúdas
e manteúdas das pontas-de-ruas das sedes dos municípios em que exorbitavam
poderes e prepotências; também relacionando-se sexualmente com as filhas dos
trabalhadores de suas extensas propriedades rurais, muitas vezes gerando proles
numerosas.
Os números dos relacionamentos extra
conjugais efetivos revelam a verdadeira história das famílias mais simples do sertão
baiano. Entretanto, a moral conservadora das famílias abastadas e tradicionais
perdurou até o início da Revolução Sexual. Mas, travestida de modernidade, a
era do Imperialismo Agropecuário ainda ressurge nas festas de vaquejadas.
A
Revolução Sexual no Sertão do Estado da Bahia encontrou nas festas públicas de
natureza Agrobrega, oferecidas às
massas pelo Estado de Direito espaços mais livres e mais apropriados a todas e
quaisquer formas de expressões extravagantes e comportamentos
exacerbados; principalmente violentos e truculentos. Por exemplo, a expressão “Pegá Mulé”, que denota o comportamento
do homem primitivo que adentrava a uma caverna, pegava uma mulher pelos cabelos
e a estuprava de forma animalesca e brutal, passa a repetir-se agora em alguns
espaços do Sertão da Bahia, sob a égide da Indústria
Cultural. Portanto, nesta perspectiva de leitura, conversando com
indivíduos que participam desses eventos, fica demasiado óbvio que eles não têm
nenhuma percepção de afeto, atração por beleza, subjetividade sensual, simpatia
ou qualquer sentimento pelo outro. Para os tais, nas festas de vaquejadas ou
demais eventos festivos, o corpo humano é tão somente uma máquina de fazer sexo
a qualquer custo. Na mesma perspectiva cultural do sertão baiano, passa-se
também a “pegar” garotos, a disseminar DSTs, a proliferar HIVs e outras
patologias nefastas. O discurso do Estado é que “o povo gosta dessas coisas”.
Dessa forma, a diferença entre “gosto” e truculência hedionda é somente “um
detalhe”. Mas esta diferença que pode se arguida neste contexto de Modernidade Tardia é a de que – talvez –
o homem pré-histórico não tivesse o Estado para manipulá-lo, para condicioná-lo
a “pegá mulé e garotos”, a consumir
drogas e bebidas alcoólicas e, é certo, não ter acesso a linguagens e tecnologias
de elevadíssima complexidade e de última geração. A propósito dessas linguagens
e instrumentos tecnológicos, é surpreendente como um sujeito não escolarizado e
brutalizado pela sociedade, com seríssimas dificuldades de uso da língua
materna, consegue manipular um aparelho tecnológico sofisticado com códigos de
manuseio em língua estrangeira, e ainda com perícia aparente de cientista da
NASA. Logo, as relações entre o indivíduo brutalizado e as tecnologias de ponta
carecem de ser pensadas neste contexto de baianidade; carecem de ser HUMANIZADAS,
melhor civilizadas através de um sistema de Educação Escolar de qualidade. Se é
que há interesse em pensar HUMANIDADE civilizada na Bahia. Aliás, o que poderá
nos ocorrer se indivíduos (des)humanizados extrapolarem os domínios de usos
tecnológicos, segundo a leitura de Francia Fukuyama?
“No
filme do australiano George Miller, Mad
Max II: A caçada continua, a
civilização dos nossos dias, baseada no petróleo, sofre um colapso como
resultado de uma guerra apocalíptica. A ciência desapareceu. Os visigodos e
vândalos dos últimos dias percorrem as estradas montados nas suas
Harley-Davidsons e bugues das dunas, tentando roubar gasolina e munições uns
dos outros, porque toda a tecnologia da produção se perdeu.
“A
possibilidade da destruição cataclísmica da nossa moderna civilização
tecnológica e a volta brusca à barbárie têm sido objeto constante da ficção
científica, especialmente no período do pós-guerra, quando a invenção das armas
nucleares fez com que isso parecesse possível. Frequentemente, o tipo de
barbárie no qual a humanidade mergulha não é a pura ressurreição das formas
mais antigas de organização social, mas uma mistura curiosa de antigas formas
sociais e tecnologia moderna, como quando imperadores e duques voam entre
sistemas solares nas suas espaçonaves”. (Fukuyama, 1992, p. 115).
Convém não esquecer – até como forma de
precaução – de que os nossos “visigodos e vândalos” estão percorrendo as ruas
das nossas cidades, da imensa região do Sertão
de Canudos, “montados” em suas Yamaha, para roubarem os nossos aparelhos
celulares de última geração!
Ora, a “mistura curiosa de antigas
formas sociais e tecnologia moderna”, assim como a “mistura” de culturas
bárbaras e corpos sensuais, “produzidos” com o emprego de aparato tecnológico de
elevada sofisticação estética, é um dado assaz curioso.
Chega o dia do início da vaquejada
e a Rainha começa a ser “produzida”
para o desfile. A mãe está eufórica. A moça cercada de amigas, outras mulheres
da família e profissionais da moda vai sendo trabalhada com esmero tecnológico
de última geração, para uma “volta brusca à barbárie”:
– Você vai ter que arrasar!
Especialistas em maquiagem,
estética e estilística discutem cada detalhe; divergindo em alguns, concordando
em outros. Cada pessoa apresenta uma ideia diferente, mas na hora do desfile a
Musa está Encantadora, Fascinante, Extasiante. E vai o Trio Elétrico “detonando” linguagens guturais de vaquejadas,
conduzindo a Rainha sorridente e
sedutora, circundada por uma cavalgada de fazer inveja às Cruzadas Medievais, e
por uma carreata de automóveis, alguns importados e de alto luxo.
Em meio à ostentação de tanto luxo
e glamour, contrapondo-se à imundície
repugnante das ruas, também exibe-se uma parafernália de equipamentos de
elevadíssima sofisticação tecnológica e de última geração: tiram fotos, gravam,
fazem self e “tudo o que têm
direito”. Entretanto, não obstante tamanha ostentação, as ruas por onde passa a
Rainha da Vaquejada acham-se infectadas
por dejetos de animais, restos de cervejas e urinas dos homens. Os odores
nauseabundos deterioram a cidade, mas a moça continua a rir o seu riso de
menina ingênua como uma pétala e sublime como uma flor. A galera bêbada e drogada vocifera impudicícias, impropérios e
infâmias acerca do corpo e do sexo da Musa; gritando em alto e bom som o que
faria com ela em um quarto de motel. Neste momento, entra em cena o aparelho
repressivo do Estado para defender “a moral e a honra” da sociedade, mas a
turba em maior número e mais disposta a brigar afugenta os agentes da repressão,
e um traficante de drogas que comanda a galera,
satisfeito com os lucros, grita para a clientela:
– Valeu Boi!
À noite, a sociedade oferece uma
lauta recepção para autoridades, convidados especiais e empresários de Parques
de Vaquejadas. A Rainha ainda mais
linda e mais elegante do que esteve à tarde, é a Estrela de Primeira Grandeza.
No correr da noite, um moço de
“boa presença” passa a flertar com a Musa. Perceptiva, ela recorre à argúcia
materna:
– Quem é?
– Já apurei que é um bom partido,
juiz de direito. Trata-se de um privilegiado que não chegou à magistratura por
competência, conhecimento jurídico ou habilidade comprovada para o exercício do
cargo público, mas por ser filho do Desembargador Presidente do Tribunal de
Justiça. Preste atenção! Isso é ótimo para a gente. Para nós interessa Poder,
dinheiro e privilégios.
Na tarde do dia seguinte, estavam
enamorados.
O namoro prossegue, tempos depois
assume status de noivado. A genitora da moça passa a administrar o
relacionamento amoroso, com vistas a um futuro muito promissor para a “menina”
e vantagens ilimitadas para a família. O moço é recebido, hospedado, servido e
reverenciado pela família da noiva como um Rei.
– Mãinha...
– Seja burra ou finja-te de
burra. Homem gosta de mulher burra! Mas, entre quatro paredes seja devassa ao
extremo.
Casada com o magistrado, a ex Rainha da Vaquejada vai residir em um
condomínio de alto padrão na capital baiana e a integrar a constelação das
Musas soteropolitanas. Paris, Londres, Nova Iorque, Amsterdam passam a ser
espaços de sua preferência, com visitas habituais a casas de alta costura e
joalherias caras. Tempos depois, nascem as crianças. Até que um dia, ao
retornar de uma sessão de ginástica aeróbica, a ex Rainha flagra o marido na própria cama do casal com um garoto de
programa batedor de carteiras e usuário de drogas na Baixa dos Sapateiros. A
esposa entra em desespero, pega as crianças e volta para o interior.
– Que é isso menina? Pôxa... Na
alta sociedade isso é normal, normalíssimo! Esses comportamentos são dogmas da
sociedade brasileira. É esse comportamento que a sociedade valoriza e reifica,
e é assim que o indivíduo chega ao topo da pirâmide social. A sociedade
brasileira é dogmática.
– Mãinha! O cara é juiz
corregedor do Tribunal!
– E daí? O que tem isso? Na
prática, ele é somente mais uma peça na engrenagem ideológica do Estado, para
favorecer às oligarquias dominantes, acobertar os seus crimes hediondos, garantir
impunidades e privilégios à sociedade, contracenar com a Lei e trucidar negros,
pobres, favelados, flagelados e miseráveis. Para que você pensa que o Poder
Hegemônico da Sociedade Dominante fabrica um magistrado? Por que Zé Dirceu
fabricou o Dias? Para fazer Justiça à viúva? Ao órfão? Ao trabalhador
explorado, escravizado e espoliado? À empregada doméstica seviciada e violentada
por um patrão detentor de Poder? Ao
canceroso que não tem acesso aos serviços públicos de saúde? Minha filha, por
que toda vez que a gente vê na mídia que o Paulo Preto foi preso, antes dele
chegar na cadeia já chegou uma carreta de habeas corpus para soltá-lo? Por
acaso, Paulo Preto é de menor periculosidade do que Fernandinho Beira-Mar e do
que Marcola? Minha filha, isto é
Brasil. Acorde!
– Mãinha!!!
– Olha Minha filha, no Brasil, a sociedade
e o Poder são desse jeito; quem entra neles não pode ter nenhum escrúpulo,
senão sobra. Se você tivesse casado com um desses paroaras daqui que não saem
de cima de um cavalo, e que não tiram o chapéu da cabeça nem para tomar as
refeições, teria a vida que tens? E quem garante que um dia não o encontraria
na mesma situação em que encontraste o teu marido juiz de direito?
– Mãinha, eu não sei como poderei
aceitar esta realidade...
– É simples, é só você pensar que
o teu pai vai precisar de um cargo elevado no Estado, para se aposentar com
estabilidade financeira. Precisamos viver uma vida folgada em Vilas do
Atlântico. Eu amo Vilas! E o teu irmão terá que ser promovido ao nível mais
alto da função pública, para não vir a ter prejuízo.
No dia posterior, chegam o sogro e a sogra da
moça para encontrar uma solução para o caso. Logo, organiza-se um conciliábulo
e o jurisconsulto matreiro faz um pronunciamento como que estando do alto da
Tribuna; proclamando um discurso filosófico quase interminável, também recheado
de preceitos científicos e teológicos, para justificar o comportamento do filho:
– Estamos aqui para encontrar uma
solução pacífica e evitar todo e qualquer risco de escândalo; o que seria muito
constrangedor e desaconselhável.
– Por que constrangedor, Excelência? O
constrangimento é para mim que assisti a cena...
– Porque havemos de convir que se
trata de uma autoridade do Poder Judiciário, portanto, não pode ser exposto à
execração. Além disso, ele se acha na iminência de ser elevado a ministro do
Supremo Tribunal...
– E eu com isso?
– Ah! Você faz parte da sociedade.
Nós somos a sociedade e temos o Poder nas mãos. A sociedade e o Poder estão
acima de tudo! Podemos até ter as nossas fraquezas, mas isso também faz parte,
até pelos privilégios de que dispomos. Avalie os privilégios de que você dispõe;
reflita um pouco. A sociedade e o Poder são assim...
A moça quedou a fronte e submergiu em um silêncio
profundo... Percebendo, a genitora astuta chamou o casal para uma outra sala
mais reservada, deixando a “menina” submersa em seus pensamentos.
– A senhora e o senhor podem
sossegar, tenho condições de fazê-la retornar para o esposo com as três
crianças em um prazo de quatro a cinco dias no máximo. Empenho a minha palavra!
Mas depende de Vossa Excelência.
O velho desembargador respirou aliviado.
– Fico-vos eternamente grato...
– Mas o senhor sabe: uma mão lava
outra, como se diz em linguagem jurídica Manum
manus lavat. Tenho algumas pendências jurídicas e quero rogar os vossos
préstimos.
– Quais?
A mulher apresentou-lhe uma lista
de questões pendentes.
– Excelência, por exemplo, esta questão aqui é uma indenização a que
temos direito, mas soubemos que a outra parte subornou um desembargador que
pediu vistas do processo. Isso pode levar vinte anos; não sei se estarei viva.
Além disso, quando ele liberar o processo, o meu direito já prescreveu.
O Presidente do Tribunal de Justiça, examinou
o documento, coçou a cabeça, cofiou os bigodes, olhou para a esposa e devolveu
o texto com ar de desdém.
– Talvez Vossa Excelência não se
lembre de mim, mas eu sou daquele tempo em que Vossa Excelência ainda moço com
a vossa esposa, aqui presente, frequentavam “recepções” em uma fazenda suntuosa
aqui da região, onde participavam de “trocas de casais” e programas com garotos
e garotas.
Então a autoridade empalideceu,
olhou surpreendido para a interlocutora, quedou a fronte, depois aquiesceu e
garantiu atender a todas as demandas em questão. Passados três dias, o Diário
Oficial do Poder Judiciário publicou as sentenças favoráveis à parte
impetrante. No quinto dia, a moça voltou para o marido com as crianças.
Tempos depois, achava-se a ex Rainha da Vaquejada no Mezanino do
Castro Alves quando reencontrou uma querida amiga de infância. Foi uma
Felicidade! Conversaram, trocaram endereços e telefones, e passaram a se
encontrar com regularidade, até que assumiram um relacionamento homo afetivo.
REFERÊNCIAS
BAKHTIN, Mikhail . A cultura popular na Idade Média e no Renascimento: o contexto de
François Rabelais . 2. ed. São Paulo: Hucitec, 1993.
CUNHA, Euclides da . Os sertões . São Paulo: Nova Cultural, 2002.
FUKUYAMA, Francis . O fim da história e o último homem . Rio de Janeiro: Rocco, 1982.
GEERTZ, Clifford . O saber local: novos ensaios em antropologia interpretativa . 3.
ed. Petrópolis: Vozes, 1997.
GUATTARI, Félix et ROLNIK, Suely . Cartografias do desejo . 4. ed.
Petrópolis: Vozes, 1996.
MATOS, Marlise . Reinvenções do vínculo amoroso: cultura e identidade de gênero na
modernidade tardia . Belo Horizonte: UFMG, 2000.
MURARO, Rose Marie . Sexualidade da mulher brasileira: corpo e classe social no Brasil .
4. ed. Petrópolis: Vozes, 1983.
RODRIGUES, Matias . Vida do Padre Gabriel Malagrida . Belém: Centro de Cultura e
Formação Cristã, 2010.
SAMPAIO, Consuelo Novais . Canudos: cartas para o barão . São
Paulo: Edusp, 1999.
Serrinha, 06/08/2018.
*PROFESSOR
DE LITERATURA BRASILEIRA NO DEPARTAMENTO DE CIÊNCIAS HUMANAS E TECNOLOGIAS –
CAMPUS XXII DA UNIVERSIDADE DO ESTADO DA BAHIA – UNEB. EM EUCLIDES DA CUNHA.



Leave a Comment