Canudos à Contraluz Na Cultura Literária

RAINHA DA VAQUEJADA


RAINHA DA VAQUEJADA
                                                                 por José Plínio de Oliveira*

  
 
               NOS MESES QUE ANTECEDEM a “festa da vaquejada” ocorrem intensas mobilizações sociais em torno da escolha da Rainha da Vaquejada, fabricada entre as jovens brancas ditas mais bonitas, elegantes e sensuais da cidade. Obviamente que a moça terá que ser filha da Aristocracia Dominante, para melhor abrilhantar o evento e representar a sociedade. Em tais ocasiões, se a escolha de uma moça da sociedade para ocupar uma representação simbólica e transitória de “Rainha, Princesa, Miss, Musa e etc.” depender de votos ou de jurados, é dito aqui que a família interessada compra votos, quando é o caso, inclusive de crianças e adolescentes, alunos de escolas regulares; pasmem; e suborna jurados adultos, porque os fins justificam os meios. Daí o convencimento de que um sistema de Educação Escolar manipulado por uma sociedade dominadora, provinciana, arcaica, corrupta, marginalizadora e ignóbil, ao invés de formar cidadãos e cidadãs, leva-os à dependência química, ao narcotráfico, à prostituição infanto-juvenil, ao banditismo, à exclusão. Portanto, uma jovem pobre e negra ainda que muitíssimo mais bela, elegante, esplendida e sensual que a representante branca, não teria chance alguma de ser escolhida em face dos interesses obscuros que circundam o corpo da Rainha, o sexo e a bunda da Rainha. Tudo em nome da Sociedade Aristocrática.



            No Brasil Aristocrático, tal como assevera o próprio nome, a sociedade é uma organização, uma confraria de sócios privilegiados que participam das benesses do Poder Constituído do Estado, submetendo a sua aparelhagem ideológica para se locupletarem com a coisa pública, saquearem os cofres públicos, prostituírem a Lei, exorbitarem impunidades e opulências, explorarem e vilipendiarem a massa trabalhadora pobre, execrarem e ridicularizarem a pessoa do excluído, por exemplo, o Peão.



            Na mesma ocasião da “escolha” da Rainha, também é selecionado um Peão; prefigurando uma espécie de troglodita grotesco, manipulado pelo Poder Dominante para contracenar e desfilar com a jovem em cima de um Trio Elétrico. Nesta perspectiva de estudo, há o convencimento de que o Peão representa o contrassenso espúrio, o oposto absoluto à exaltação da Beleza Feminina Branca. Daí se depreende que o brilho exuberante da Rainha da Vaquejada resplandece com maior intensidade opondo-se à escuridão absoluta do Peão, que em cima do Trio Elétrico é o escárnio da classe trabalhadora que subsiste na escuridão humana; explorada, escravizada, vilipendiada e trucidada nas Fazendas de Gado da sociedade dominante; para satisfazer às suas taras abjetas. Dessa forma, o Peão ocupa o lugar do “orango valetudinário” de que trata Euclides da Cunha em sua obra prima Os sertões.

            Nestes sertões do território baiano, a exploração do homem pelo homem é crucial. Mas a execração, o preconceito e o ódio com que o trabalhador pobre, o negro e o índio são restringidos à sub condição de menos-valia, tornam-se dissimulados e aparentemente atenuados pelo cinismo endêmico e leviano com que a pobreza é vilipendiada pela sociedade dominante. Portanto, o cinismo leviano é o pano de fundo que oculta toda a crueldade arbitrada pelas Potestades do Poder à pessoa humana do pobre; sob a leviandade da “ternura amiga”, do agrado fácil e do apadrinhamento utilitário; o que é perigoso inclusive porque o sujeito explorado não consegue vislumbrar a face hedionda do preconceito e do ódio de que é vítima aqui no Estado da Bahia. Nas regiões Sul e Sudeste do Brasil, as faces do ódio, do preconceito e da exclusão humana são mais visíveis, principalmente contra os nordestinos flagelados que migram para aquelas regiões, mas na Bahia não. Aqui é difícil identificar onde está o ódio e o preconceito hediondos. O cinismo cuida de ocultá-lo muitas vezes sob o disfarce da “amizade” da parte do explorador para com o explorado. Portanto, o “orango” somente é “valetudinário” quando submetido pela sociedade dominante, inclusive para execuções dos crimes de mando com que a Aristocracia não pode sujar-se. Na maioria das vezes crimes de mando perpetrados por sujeitos pobres manipulados contra outros pobres. Porque “se o patrão manda, tem de fazê”. É a lei do manda quem pode e obedece quem tem juízo, que aqui no Estado da Bahia em muitas situações extrapola as demandas da cultura da truculência e da violência. Dessa forma, na mesma proporção em que o Peão, assim como o jagunço, é um corpo dócil para a Aristocracia Troglodita, contra o povo oprimido é um monstro covarde. Principalmente contra mulheres, crianças e idosos pobres. Mas, todavia, ainda convém ressaltar que no interesse da Festa da Vaquejada, o Peão é um “hércules-quasímodo”, opondo feiura horrenda à beleza resplandecente da Rainha da Vaquejada. Portanto, nos festejos mais grotescos do sertão baiano, o Peão que contracena com a menina linda pode vir a ser tentado a presumir que os aplausos da galera também são para ele; até pelos delitos que perpetra a mando do Crime Organizado Aristocrático, que se sobrepõe ao Crime Organizado Oficial. Pobre Peão! Neste contexto cultural, Beleza é uma exaltação de Poder, uma categoria superior e requintada. E também uma forma de exaltação da exuberância estética em oposição à miséria construída.  


   
            Beleza, charme, glamour, sensualidade, sexualidade, lascívia e eroticidade desregrada também são requisitos indispensáveis para a escolha da Rainha elegante e rica. Portanto, familiares, o grupo político a que pertence esses familiares, amigas e amigos mais próximos, pretendentes tarados, torcidas organizadas e admiradores fanatizados mobilizam-se em prol da escolhida. Entretanto, cabe à família maior empenho e ao grupo político maior investimento no corpo da moça. Nesse contexto de vaquejada, para a família da menina, o palco do Trio é uma vitrine em que o corpo é exposto como mercadoria e objeto do desejo de torpezas sexuais e taras inomináveis; visando a interesses de pretendentes ricos e poderosos. Literalmente, a família põe a “menina” à venda, e nessas ocasiões, a avareza, a mediocridade, o provincianismo, o cinismo, a prepotência, a truculência, a arrogância, a leviandade e a obscenidade atingem a proporções astronômicas; sem precedentes em nenhum outro lugar do mundo. E a Vergonha oprime ao ser pensante, esmagando-o como se a Cordilheira dos Andes deitasse-lhe sobre os ombros. Pensar a Bahia na sua dimensão sociocultural às vezes é gratificante, outras vezes é estimulante, outras vezes é constrangedor, outras tantas vezes é um exercício Espiritual. Porém, quem quer que se atreva a pensar e a estudar culturas do Sertão da Bahia, jamais deve ter a estúpida, ingênua e ridícula pretensão de ser perfeccionista, paladino da moralidade, defensor da honra da família, militante de valores civilizados, entusiasta da grandeza do ser humano ou coisa que o valha. Aqui, principalmente aqui no sertão baiano cultura é uma realidade a ser estudada com profícua resignação, respeito e inveterada curiosidade. Porque Cultura é Cultura e, data vênia, indiscutível.

             A discussão sobre cultura e corpos dóceis nesta parte do Nordeste do Brasil e Sertão da Bahia há de demandar estudos meticulosos, principalmente, o debate sobre o corpo-objeto na perspectiva de interesses que, na maioria das vezes, têm início nos ambientes familiares. Na verdade, o corpo atraente da mulher bonita aqui no interior baiano suscita várias especulações estéticas e pretensões mirabolantes, inclusive mercantilistas. Nos contextos familiares, o olhar materno é o primeiro a realizar a leitura estética do corpo de uma filha ainda na primeira infância, e a perceber dotes físicos que indiciam beleza, elegância sensualidade e sexualidade. Todos esses dotes podem ser capitalizados com objetivos políticos e financeiros. Dessa forma, a Mãinha desenvolve uma espécie de incestuosidade simbólica e passa a trabalhar o corpo da criança, estimulando e acentuando todos os requintes de exaltação exacerbada da beleza sensual e da plena liberdade sexual já na adolescência. Algumas mamães, por exemplo, costumam declarar abertamente: “Minha filha vai fazer tudo que não me deixaram fazer!” De fato, em muitos casos, projetada para a vanguarda da libertinagem desregrada pela própria genitora frustrada, oprimida e recalcada em seus desejos da juventude, a filha moça muitas vezes é levada à promiscuidade sexual, às drogas, à contaminação com HIV e até ao crime. Tudo em decorrência da exploração do seu corpo, da mercantilização do seu corpo. 



             Na medida em que o corpo da menina-moça vai se desenvolvendo e as formas sensuais vão se tornando exponenciais e sedutoras, a mamãe faz dela o seu alter ego, projetando-lhe todas as subjetividades, sonhos, afetividades, taras recalcadas e desejos que lhes foram reprimidos quando na mesma idade. O problema é que a menina passa a viver sob os ônus de uma dominação dissimulada, perdendo a primazia da infância e abdicando da sua autonomia individual. Por exemplo, é a mãe quem escolhe as roupas da moda que a moça deve usar; quase todas atrevidas e provocantes: shorts jeans minúsculos e estraçalhados como se um tigre de Bengala a houvesse atacado, deixando somente fragmentos de tecidos que mal lhe cobrem o sexo; blusinhas exíguas que apenas lhe guardam os bicos dos seios. E quando a genitora “zelosa” sai com a filha às ruas é como se exibisse um troféu, uma Vênus de Milo, uma Musa. E vai a mãe orgulhosa em face dos olhares que se projetam para o corpo da filha.

             A mamãe se sente de “alma lavada”, vingada de todas as tiranias de que foi vítima na mocidade. Exibir uma filha, linda, cheirosíssima, de corpo escultural, semidespida, que dirige o seu próprio carro, pilota a sua própria moto, vai a motéis com o namorado, passa noites fora de casa sem ter que dar qualquer satisfação a ninguém, e saindo às ruas é alvo de olhares cobiçosos, tarados, lascivos, insaciáveis; para a mamãe é uma grande vitória! 

             Academias, cursos de balés, salões de estética e institutos de beleza passam a ser compromissos inadiáveis para favorecer à ideologia do corpo perfeito que a sociedade impõe à mulher. Aliás, a higidez da sociedade vem se refletindo na cultura do Bumbum Perfeito, que vem condicionando mulheres, inclusive esclarecidas, a submeterem-se em espaços inadequados a intervenções cirúrgicas com aplicações de substâncias tóxicas de uso industrial em seus corpos, visando a melhorar a performance do Bumbum. Mulheres jovens têm vindo a óbito e outras têm ficado com sequelas graves. Não é por isso que a mulher deva deixar de se cuidar e de ser bela – resguardados os devidos cuidados – até para sentir-se bem espiritualmente consigo mesma. É óbvio. O grau mais elevado da Beleza Feminina é o sentir-se bem com o seu espírito e o seu corpo de mulher.

             A mulher não tem a obrigação de sacrificar-se para satisfazer às taras repugnantes e abjetas da sociedade, nem de aceitar ideologias execrandas que deplorem o seu corpo como mero objeto descartável. A pravidade com que essas ideologias nefastas passam a execrar e a abominar o sexo da mulher, por exemplo, tendem a torná-lo írrito. Porque, também, quando a sociedade é exigente e implacável para com o corpo da mulher moderna, passa sistematicamente a anula-la e a ser um peso na vida dela, impedindo que a sua beleza interior – que transcende a beleza física – seja percebida, admirada e valorizada. Aliás, é a Beleza Interior que deve refletir-se no corpo da mulher, e não o contrário. Assim como a inteligência, o pensamento e a perspicácia deviam refletir-se na aura da Mulher. Nesta perspectiva de estudo, algumas personalidades femininas brasileiras nos legaram valores inesquecíveis. Para não citar legiões de Mulheres Exponenciais, reflitamos sobre Chica da Silva, Clementina de Jesus, Carolina Maria de Jesus, Luz del Fuego, Tia Ciata, Iara Iavelberg, Dona Ivone Lara, Iolanda Penteado, Dona Zica, Nara Leão, por exemplo. Mulheres que primaram pela Beleza Interior, sem jamais prescindir da Beleza Física. Souberam ser Musas, eximindo-se de qualquer forma de escravidão sensual e sexual, para elevar a liberdade feminina à sua mais plena exaltação empoderada.

             Mas, se a Mulher Musa contemporânea se acha em um espaço menos exigente e de aparente descontração; em casa assistindo TV por exemplo; lembra-se de pegar uma mecha dos cabelos lindos, limpos, longos e sedosos para perceber o aroma. Caso não seja esse o desejado pelos outros, tem que ir correndo para o salão de beleza, porque o corpo tem que estar sempre em ponto-de-bala na sua inteireza absoluta, para não se descuidar de atender a olhares, olfatos e tatos maliciosos, sequiosos, voluptuosos, lascivos e obscenos, tanto da parte de homens quanto de outras mulheres. Porque a Musa contemporânea está encarcerada na masmorra do desejo alheio. Logo, a vida da Musa contemporânea é uma Luta! Assim como foram, de forma inversa, as restrições macabras arbitradas às mulheres de tempos passados. Antes da Revolução Sexual.          

             De fato, em tempos passados e em nome de uma moral suspeita e obscura, famílias tradicionais do interior da Bahia infligiram restrições draconianas a suas filhas. Estas sofreram muito sob os ônus imperativos do poder patriarcal machista. Questões de namoros ou de meras subjetividades afetivas por parte da moças “de família”, à margem dos interesses oligárquicos de pais autoritários, eram punidas e restringidas com mãos de ferro. Eram eles que escolhiam namorados, noivos e maridos para suas filhas; desde que fossem atendidas as suas expectativas, financeiras, políticas e de poder. Inúmeras moças bem-nascidas foram internadas à força em colégios de freiras pelo simples fato de insinuarem quebrar paradigmas fossilizados de famílias aristocráticas. Outras tantas cometeram suicídios.

             Os internamentos para moças tornaram-se política coercitiva tão arbitrária que o Padre Jesuíta Gabriel Malagrida, que trabalhou no Brasil em pleno século XVIII, inclusive em Água Fria e Tucano, no Sertão da Bahia, planejou e desenvolveu construções de Casas de Recolhimento Para Moças em Salvador e em outras cidades do Norte, para livrá-las de imaginações tentadoras. Imagine uma filha do coronel José Américo Camelo de Sousa Velho, primo, amigo e correligionário do barão de Jeremoabo, já no século XIX, deixar transpirar simpatia por um jovem vaqueiro de uma das Fazendas do pai! Entretanto, não obstante os discursos morais ultra conservadores, os homens poderosos desta terra mantinham relações com as suas teúdas e manteúdas das pontas-de-ruas das sedes dos municípios em que exorbitavam poderes e prepotências; também relacionando-se sexualmente com as filhas dos trabalhadores de suas extensas propriedades rurais, muitas vezes gerando proles numerosas.

             Os números dos relacionamentos extra conjugais efetivos revelam a verdadeira história das famílias mais simples do sertão baiano. Entretanto, a moral conservadora das famílias abastadas e tradicionais perdurou até o início da Revolução Sexual. Mas, travestida de modernidade, a era do Imperialismo Agropecuário ainda ressurge nas festas de vaquejadas.

             A Revolução Sexual no Sertão do Estado da Bahia encontrou nas festas públicas de natureza Agrobrega, oferecidas às massas pelo Estado de Direito espaços mais livres e mais apropriados a todas e quaisquer formas de expressões extravagantes e comportamentos exacerbados; principalmente violentos e truculentos. Por exemplo, a expressão “Pegá Mulé”, que denota o comportamento do homem primitivo que adentrava a uma caverna, pegava uma mulher pelos cabelos e a estuprava de forma animalesca e brutal, passa a repetir-se agora em alguns espaços do Sertão da Bahia, sob a égide da Indústria Cultural. Portanto, nesta perspectiva de leitura, conversando com indivíduos que participam desses eventos, fica demasiado óbvio que eles não têm nenhuma percepção de afeto, atração por beleza, subjetividade sensual, simpatia ou qualquer sentimento pelo outro. Para os tais, nas festas de vaquejadas ou demais eventos festivos, o corpo humano é tão somente uma máquina de fazer sexo a qualquer custo. Na mesma perspectiva cultural do sertão baiano, passa-se também a “pegar” garotos, a disseminar DSTs, a proliferar HIVs e outras patologias nefastas. O discurso do Estado é que “o povo gosta dessas coisas”. Dessa forma, a diferença entre “gosto” e truculência hedionda é somente “um detalhe”. Mas esta diferença que pode se arguida neste contexto de Modernidade Tardia é a de que – talvez – o homem pré-histórico não tivesse o Estado para manipulá-lo, para condicioná-lo a “pegá mulé e garotos”, a consumir drogas e bebidas alcoólicas e, é certo, não ter acesso a linguagens e tecnologias de elevadíssima complexidade e de última geração. A propósito dessas linguagens e instrumentos tecnológicos, é surpreendente como um sujeito não escolarizado e brutalizado pela sociedade, com seríssimas dificuldades de uso da língua materna, consegue manipular um aparelho tecnológico sofisticado com códigos de manuseio em língua estrangeira, e ainda com perícia aparente de cientista da NASA. Logo, as relações entre o indivíduo brutalizado e as tecnologias de ponta carecem de ser pensadas neste contexto de baianidade; carecem de ser HUMANIZADAS, melhor civilizadas através de um sistema de Educação Escolar de qualidade. Se é que há interesse em pensar HUMANIDADE civilizada na Bahia. Aliás, o que poderá nos ocorrer se indivíduos (des)humanizados extrapolarem os domínios de usos tecnológicos, segundo a leitura de Francia Fukuyama?

“No filme do australiano George Miller, Mad Max II: A caçada continua, a civilização dos nossos dias, baseada no petróleo, sofre um colapso como resultado de uma guerra apocalíptica. A ciência desapareceu. Os visigodos e vândalos dos últimos dias percorrem as estradas montados nas suas Harley-Davidsons e bugues das dunas, tentando roubar gasolina e munições uns dos outros, porque toda a tecnologia da produção se perdeu.
“A possibilidade da destruição cataclísmica da nossa moderna civilização tecnológica e a volta brusca à barbárie têm sido objeto constante da ficção científica, especialmente no período do pós-guerra, quando a invenção das armas nucleares fez com que isso parecesse possível. Frequentemente, o tipo de barbárie no qual a humanidade mergulha não é a pura ressurreição das formas mais antigas de organização social, mas uma mistura curiosa de antigas formas sociais e tecnologia moderna, como quando imperadores e duques voam entre sistemas solares nas suas espaçonaves”. (Fukuyama, 1992, p. 115).

                 Convém não esquecer – até como forma de precaução – de que os nossos “visigodos e vândalos” estão percorrendo as ruas das nossas cidades, da imensa região do Sertão de Canudos, “montados” em suas Yamaha, para roubarem os nossos aparelhos celulares de última geração!   

             Ora, a “mistura curiosa de antigas formas sociais e tecnologia moderna”, assim como a “mistura” de culturas bárbaras e corpos sensuais, “produzidos” com o emprego de aparato tecnológico de elevada sofisticação estética, é um dado assaz curioso.
             Chega o dia do início da vaquejada e a Rainha começa a ser “produzida” para o desfile. A mãe está eufórica. A moça cercada de amigas, outras mulheres da família e profissionais da moda vai sendo trabalhada com esmero tecnológico de última geração, para uma “volta brusca à barbárie”:

             – Você vai ter que arrasar!     

             Especialistas em maquiagem, estética e estilística discutem cada detalhe; divergindo em alguns, concordando em outros. Cada pessoa apresenta uma ideia diferente, mas na hora do desfile a Musa está Encantadora, Fascinante, Extasiante. E vai o Trio Elétrico “detonando” linguagens guturais de vaquejadas, conduzindo a Rainha sorridente e sedutora, circundada por uma cavalgada de fazer inveja às Cruzadas Medievais, e por uma carreata de automóveis, alguns importados e de alto luxo.

             Em meio à ostentação de tanto luxo e glamour, contrapondo-se à imundície repugnante das ruas, também exibe-se uma parafernália de equipamentos de elevadíssima sofisticação tecnológica e de última geração: tiram fotos, gravam, fazem self e “tudo o que têm direito”. Entretanto, não obstante tamanha ostentação, as ruas por onde passa a Rainha da Vaquejada acham-se infectadas por dejetos de animais, restos de cervejas e urinas dos homens. Os odores nauseabundos deterioram a cidade, mas a moça continua a rir o seu riso de menina ingênua como uma pétala e sublime como uma flor. A galera bêbada e drogada vocifera impudicícias, impropérios e infâmias acerca do corpo e do sexo da Musa; gritando em alto e bom som o que faria com ela em um quarto de motel. Neste momento, entra em cena o aparelho repressivo do Estado para defender “a moral e a honra” da sociedade, mas a turba em maior número e mais disposta a brigar afugenta os agentes da repressão, e um traficante de drogas que comanda a galera, satisfeito com os lucros, grita para a clientela:

             – Valeu Boi!

             À noite, a sociedade oferece uma lauta recepção para autoridades, convidados especiais e empresários de Parques de Vaquejadas. A Rainha ainda mais linda e mais elegante do que esteve à tarde, é a Estrela de Primeira Grandeza.    
   
             No correr da noite, um moço de “boa presença” passa a flertar com a Musa. Perceptiva, ela recorre à argúcia materna:

             – Quem é?

             – Já apurei que é um bom partido, juiz de direito. Trata-se de um privilegiado que não chegou à magistratura por competência, conhecimento jurídico ou habilidade comprovada para o exercício do cargo público, mas por ser filho do Desembargador Presidente do Tribunal de Justiça. Preste atenção! Isso é ótimo para a gente. Para nós interessa Poder, dinheiro e privilégios.

             Na tarde do dia seguinte, estavam enamorados.

             O namoro prossegue, tempos depois assume status de noivado. A genitora da moça passa a administrar o relacionamento amoroso, com vistas a um futuro muito promissor para a “menina” e vantagens ilimitadas para a família. O moço é recebido, hospedado, servido e reverenciado pela família da noiva como um Rei.

              – Mãinha...

              – Seja burra ou finja-te de burra. Homem gosta de mulher burra! Mas, entre quatro paredes seja devassa ao extremo.

              Casada com o magistrado, a ex Rainha da Vaquejada vai residir em um condomínio de alto padrão na capital baiana e a integrar a constelação das Musas soteropolitanas. Paris, Londres, Nova Iorque, Amsterdam passam a ser espaços de sua preferência, com visitas habituais a casas de alta costura e joalherias caras. Tempos depois, nascem as crianças. Até que um dia, ao retornar de uma sessão de ginástica aeróbica, a ex Rainha flagra o marido na própria cama do casal com um garoto de programa batedor de carteiras e usuário de drogas na Baixa dos Sapateiros. A esposa entra em desespero, pega as crianças e volta para o interior.

              – Que é isso menina? Pôxa... Na alta sociedade isso é normal, normalíssimo! Esses comportamentos são dogmas da sociedade brasileira. É esse comportamento que a sociedade valoriza e reifica, e é assim que o indivíduo chega ao topo da pirâmide social. A sociedade brasileira é dogmática. 

              – Mãinha! O cara é juiz corregedor do Tribunal!

              – E daí? O que tem isso? Na prática, ele é somente mais uma peça na engrenagem ideológica do Estado, para favorecer às oligarquias dominantes, acobertar os seus crimes hediondos, garantir impunidades e privilégios à sociedade, contracenar com a Lei e trucidar negros, pobres, favelados, flagelados e miseráveis. Para que você pensa que o Poder Hegemônico da Sociedade Dominante fabrica um magistrado? Por que Zé Dirceu fabricou o Dias? Para fazer Justiça à viúva? Ao órfão? Ao trabalhador explorado, escravizado e espoliado? À empregada doméstica seviciada e violentada por um patrão detentor de Poder?  Ao canceroso que não tem acesso aos serviços públicos de saúde? Minha filha, por que toda vez que a gente vê na mídia que o Paulo Preto foi preso, antes dele chegar na cadeia já chegou uma carreta de habeas corpus para soltá-lo? Por acaso, Paulo Preto é de menor periculosidade do que Fernandinho Beira-Mar e do que Marcola? Minha filha, isto é Brasil. Acorde!

              – Mãinha!!!

              – Olha Minha filha, no Brasil, a sociedade e o Poder são desse jeito; quem entra neles não pode ter nenhum escrúpulo, senão sobra. Se você tivesse casado com um desses paroaras daqui que não saem de cima de um cavalo, e que não tiram o chapéu da cabeça nem para tomar as refeições, teria a vida que tens? E quem garante que um dia não o encontraria na mesma situação em que encontraste o teu marido juiz de direito?

              – Mãinha, eu não sei como poderei aceitar esta realidade...

              – É simples, é só você pensar que o teu pai vai precisar de um cargo elevado no Estado, para se aposentar com estabilidade financeira. Precisamos viver uma vida folgada em Vilas do Atlântico. Eu amo Vilas! E o teu irmão terá que ser promovido ao nível mais alto da função pública, para não vir a ter prejuízo.

              No dia posterior, chegam o sogro e a sogra da moça para encontrar uma solução para o caso. Logo, organiza-se um conciliábulo e o jurisconsulto matreiro faz um pronunciamento como que estando do alto da Tribuna; proclamando um discurso filosófico quase interminável, também recheado de preceitos científicos e teológicos, para justificar o comportamento do filho:

              – Estamos aqui para encontrar uma solução pacífica e evitar todo e qualquer risco de escândalo; o que seria muito constrangedor e desaconselhável.

              – Por que constrangedor, Excelência? O constrangimento é para mim que assisti a cena...

              – Porque havemos de convir que se trata de uma autoridade do Poder Judiciário, portanto, não pode ser exposto à execração. Além disso, ele se acha na iminência de ser elevado a ministro do Supremo Tribunal...

              – E eu com isso?          
        
              – Ah! Você faz parte da sociedade. Nós somos a sociedade e temos o Poder nas mãos. A sociedade e o Poder estão acima de tudo! Podemos até ter as nossas fraquezas, mas isso também faz parte, até pelos privilégios de que dispomos. Avalie os privilégios de que você dispõe; reflita um pouco. A sociedade e o Poder são assim...

              A moça quedou a fronte e submergiu em um silêncio profundo... Percebendo, a genitora astuta chamou o casal para uma outra sala mais reservada, deixando a “menina” submersa em seus pensamentos.

              – A senhora e o senhor podem sossegar, tenho condições de fazê-la retornar para o esposo com as três crianças em um prazo de quatro a cinco dias no máximo. Empenho a minha palavra! Mas depende de Vossa Excelência.

              O velho desembargador respirou aliviado.

              – Fico-vos eternamente grato...

              – Mas o senhor sabe: uma mão lava outra, como se diz em linguagem jurídica Manum manus lavat. Tenho algumas pendências jurídicas e quero rogar os vossos préstimos.

              – Quais?

              A mulher apresentou-lhe uma lista de questões pendentes.      

              – Excelência, por exemplo, esta questão aqui é uma indenização a que temos direito, mas soubemos que a outra parte subornou um desembargador que pediu vistas do processo. Isso pode levar vinte anos; não sei se estarei viva. Além disso, quando ele liberar o processo, o meu direito já prescreveu.

              O Presidente do Tribunal de Justiça, examinou o documento, coçou a cabeça, cofiou os bigodes, olhou para a esposa e devolveu o texto com ar de desdém.

              – Talvez Vossa Excelência não se lembre de mim, mas eu sou daquele tempo em que Vossa Excelência ainda moço com a vossa esposa, aqui presente, frequentavam “recepções” em uma fazenda suntuosa aqui da região, onde participavam de “trocas de casais” e programas com garotos e garotas.

              Então a autoridade empalideceu, olhou surpreendido para a interlocutora, quedou a fronte, depois aquiesceu e garantiu atender a todas as demandas em questão. Passados três dias, o Diário Oficial do Poder Judiciário publicou as sentenças favoráveis à parte impetrante. No quinto dia, a moça voltou para o marido com as crianças.

              Tempos depois, achava-se a ex Rainha da Vaquejada no Mezanino do Castro Alves quando reencontrou uma querida amiga de infância. Foi uma Felicidade! Conversaram, trocaram endereços e telefones, e passaram a se encontrar com regularidade, até que assumiram um relacionamento homo afetivo.
     


REFERÊNCIAS

BAKHTIN, Mikhail . A cultura popular na Idade Média e no Renascimento: o contexto de François Rabelais . 2. ed. São Paulo: Hucitec, 1993.    
CUNHA, Euclides da . Os sertões . São Paulo: Nova Cultural, 2002.
FUKUYAMA, Francis . O fim da história e o último homem . Rio de Janeiro: Rocco, 1982.
GEERTZ, Clifford . O saber local: novos ensaios em antropologia interpretativa . 3. ed. Petrópolis: Vozes, 1997.
GUATTARI, Félix et ROLNIK, Suely . Cartografias do desejo . 4. ed. Petrópolis: Vozes, 1996.
MATOS, Marlise . Reinvenções do vínculo amoroso: cultura e identidade de gênero na modernidade tardia . Belo Horizonte: UFMG, 2000.
MURARO, Rose Marie . Sexualidade da mulher brasileira: corpo e classe social no Brasil . 4. ed. Petrópolis: Vozes, 1983.
RODRIGUES, Matias . Vida do Padre Gabriel Malagrida . Belém: Centro de Cultura e Formação Cristã, 2010.
SAMPAIO, Consuelo Novais . Canudos: cartas para o barão . São Paulo: Edusp, 1999.

                                            Serrinha, 06/08/2018.


*PROFESSOR DE LITERATURA BRASILEIRA NO DEPARTAMENTO DE CIÊNCIAS HUMANAS E TECNOLOGIAS – CAMPUS XXII DA UNIVERSIDADE DO ESTADO DA BAHIA – UNEB. EM EUCLIDES DA CUNHA.


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