ZUZU ANGEL JONES
ZUZU ANGEL JONES
por José Plínio de Oliveira*
Quando a América Latina e o Caribe naufragaram nas Ditaduras Militares, toda uma geração também sucumbiu no cerne da desesperança. O mundo ficou opaco; faltou o brilho indispensável à Vida; mediante designação das cores arbitradas pelo Regime Militar. No caso do Brasil, as demandas de juventude tornaram-se tanto no Movimento Hippie – com os seus artesanatos de variegadas cores – quanto nos espaços dos Meninos de Deus, mais inclinados aos trabalhos com textos escritos, os quais pretendiam trazer de volta a Esperança aos corações esmagados pelos fuzis e coturnos. Aqueles Movimentos tornaram-se forças pacificadoras perante o sistema militar. Portanto, não havia como massacrá-los porque os textos dos Meninos de Deus, cuja autoria era atribuída a um jovem denominado Moisés Davi, salvo engano, traziam uma densa carga de energias espirituais, levando o leitor a arguir o senso crítico na perspectiva de resgatar as linguagens e o pensamento persuasivo daquele autor, muito farto de sabedoria. Ora, naquele contexto histórico, as cores passaram a ter uma hierarquização muitas vezes arbitradas pelo poder castrense; porque o colorido; ainda que esparramado pelo chão da Praça Pública, pode e deve levar as pessoas ao carisma da reflexão. Sendo que refletir, segundo especulações militares, levava os indivíduos, à Arte de Pensar e, segundo as demandas dominantes, pensar é um caminho seguro para libertação. Mas, a Arte pensar em muitas situações doí muito. Pois em muitos casos, os militares temiam as cores como armas de confronto com o poder dominante. As cores podiam ser armas imbatíveis para a libertação do que os militares chamavam povo. Principalmente, era impreterível relativizar o colorido de uma verdade relativa. Isto, porque as cores são linguagens muito fortes, por onde perpassam as relações de verossimilhança, isto é, uma quase verdade relativamente confiável. É aí que os militares temiam! Pois eles tinham que mentir para a sociedade civil, articulando uma aparência de verdade, acerca de opositores assassinados nos quartéis e nas demais instituições do Estado de Direito, em que, apoiados em seus direitos fantasiosos, afirmavam os militares que os opositores sustentáveis encontrarem-se vivos, mas em outra prisão de incomunicáveis. Mas, ocorria que as pessoas já estavam mortas.
Os agentes da repressão
oficial eram coagidos pelos seus superiores hierárquicos a coibir todo e
qualquer vestígio de matiz ideológico, para reprimi-lo imediatamente.
Foi o caso de um jovem que
caminhava por uma rua movimentada, do Rio de Janeiro, carregando um livro de
capa vermelha, logo o jovem foi preso, torturado, processado e condenado, à
flagelação por uma Auditoria Militar. Assim é que alguns teóricos da Ditadura
Militar defendiam que a cor tinha muita força e que, a propósito, as crianças
no início da escolaridade eram levadas ao domínio do alfabeto, principiando com
o apoio logístico das cores abundantes com que os(as) educadores(as) trabalham.
Por tudo isto, o presente
trabalho é uma caminhada consciente por entre as agruras históricas do
sistema repressivo do Estado dito de Direito, atrelado a uma paranoia insana de
extermínio de pessoas julgadas adversárias da Ditadura Militar. É por aí! Também,
serão levadas em conta as sociedades alternativas e as trajetórias HUMANAS da
senhora Zuzu Angels Jones – estilista de renome no Rio de Janeiro – e do seu
filho primogênito, Stuart Edgar Angel Jones. Então, estudante de economia da
Universidade Federal do Rio de Janeiro, preso e assassinado em uma instituição
militar daquela unidade da federação; sob a acusação de ser “subversivo” e de
integrar a luta armada. Mas, porém, o seu corpo jamais foi encontrado, não
obstante os esforços hercúleos empreendidos da parte da Senhora sua genitora,
que veio a falecer em um suspeito acidente de automóvel; depois de uma longa e
desgastante peregrinação; na perspectiva de encontrar o corpo e dar
sepultamento digno ao seu filho, Stuart Edgar Angels Jones, submetido à
escuridão de uma “noite de trevas.”
Uma tarde, quase anoitecendo,
eu estava servindo em uma instituição policial militar quando fui escalado para
integrar uma grande escolta que deveria aguardar, no píer de Botafogo, um grupo
de “subversivos” que estava sendo
trazido para o Rio de janeiro, em uma barca denominada Tenente Loreti, que
procedia da Ilha Grande, transportando “subversivos” presos, que seriam
trocados por um diplomata estrangeiro, em mãos de sequestradores. Dessa forma,
saíram primeiro os agentes da Ditadura Militar. E nós, mantidos em duas filas,
uma de cada lado, formando uma espécie de corredor, por onde as pessoas deviam
passar. De modo que, as nossas filas iam do lugar de desembarque, quase dentro
da barca, terminando na porta de entrada de um ônibus estacionado na rua, onde
os agentes da ditadura embarcavam; depois foi a vez dos prisioneiros. Observei
que os agentes da repressão oficial vestiam-se com roupas civis de variadas
cores. Não sei se aquelas cores serviam para identificar postos, patentes e graduações
empregados naquela operação. Eram muitos os agentes do governo, coloridos em dimensões
inoportunas de ódios e atrocidades. Todavia, em termos de coloração fidedigna,
pacífica, afetiva e confiável, eram os hippies e os Meninos de Deus que dominavam
as leituras de uma Semiótica da Paz. Ao contrário das leituras dos militares
que faziam apologia da semiótica do ódio, do crime e da iniquidade. Os hippies
propugnavam pela Paz. Portanto, eram mestres das leituras semióticas. Agora,
Pensemos nas cores que coloriam as suas roupas e as suas obras de artesanato.
Daquele modo, postado naquela fila, por onde começaram a passar os presos políticos,
soube mais tarde, através de um colega de trabalho, que havia passado na minha
frente um sociólogo renomado no Brasil e no exterior. É que os generais
presidentes do Brasil, visando à desmoralização dos opositores políticos, haviam
determinado que os revolucionários “subversivos,” presos por assaltos a bancos
e outras ações para financiar a luta armada, fossem recolhidos em presídios em
que se achavam presos comuns, semianalfabetos e, portanto, truculentos e
violentos. Assim é que, foi socializado depois, que aquele sociólogo que passou
na minha frente na fila, organizou na prisão da Ilha Grande, um trabalho de humanização,
conscientização, e de formação teórica possível daqueles presos, posto que então,
marginalizados pelas políticas carcerárias do Brasil foram levados àquela
prisão. Sim! Fica evidentemente claro que os prisioneiros de elevada formação, inclusive
teórica, recolhidos em um sistema carcerário deplorável, iriam pela primeira
vez, fazer a leitura da realidade prisional do Brasil, in locus. Assim é que,
os presos políticos, não obstante um mundo em que a pessoa humana literalmente
apodrecia, sob os ônus da flagelação abominável, imposta pelo Estado de Direito,
iriam aproveitar materiais sociológicos abundantes, para o aperfeiçoamento da
formação acadêmica e das experiências obtidas ali por parte de presos políticos
de elevada formação intelectual. É óbvio que, naquele centro de fabricação de
delinquentes, nos corpos dos homens submetidos ao crivo dos discursos jurídicos
do poder hegemônico padeciam, também, a morte cruel e covarde. Assim é que, a
bem da verdade, o presídio da Ilha Grande era uma instituição oficial para a
fabricação de criminosos de alta periculosidade, muito piores dos que entravam
ali. É que o aparelho repressivo do Estado age com extrema perversidade e
covardia, o que resulta na indústria de produção delinquentes. Porém, aquela
realidade, a despeito de todas as contradições, levava os sujeitos a sentir a Esperança
da Liberdade
Foi naquele tempo de conscientização
libertária, que um helicóptero pousou em uma praia deserta da Ilha Grande e
resgatou um prisioneiro comum, líder de uma facção e considerado de altíssima
periculosidade. Daí se depreende que o trabalho de debate sociológico, realizado
no presídio da Ilha Grande, estava produzindo efeitos, mais do que esperados.
Pois sim! Presos atordoados por um regime autoritário e perverso estavam
descobrindo, através dos debates sociológicos, a cor do mundo da formação
escolar que a eles foi negado. Nestas circunstâncias, a aparelhagem ideológica
do Estado, presumindo a aplicação sobre os presos – principalmente presos políticos
– era sucateada pelos atores de formação elevadíssima, em prol da libertação
das consciências; formação que vinha em primeiro lugar, para depois, em segundo
lugar empreender a libertação dos corpos dos prisioneiros. Porém, o Estado
repressivo imaginava que os presos políticos poderiam “mudar de rumo,”
interrompendo o trabalho sociológico, mediante as ações sociais dos tecnocratas
do Estado de Direito. Mas, entretanto, o Estado tem uma péssima reputação
perante as pessoas marginalizadas. Portanto, a inteligência dos presos
políticos percebeu as manipulações da tecnocracia do sistema carcerário. Este
foi um grande insight do trabalho sociológico na prisão da Ilha Grande.
Assim, quando o sociólogo foi
para exílio, trocado por um diplomata estrangeiro sequestrado pela luta armada;
em consequência do exílio salutar; o trabalho não pode continuar, então
passaram os meliantes a criar as chamadas “Falanges,” adotando, cores de
identificação, talvez ideológicas, surgindo então a dita “Falange Vermelha,”
fabricada pelo sistema repressivo do Brasil e explorada por uma emissora de TV,
que veiculou uma minissérie e enfeitiçou a população brasileira. Criou-se,
naquele tempo, a grife “Bandidos da Falange.” Óbvio que depois de brasileiros(as)
terem sido exilados(as), por razões políticas e revolucionárias, inclusive, o
próprio sociólogo que organizou o trabalho de recuperação de prisioneiros, na
abominável prisão da Ilha Grande. Assim é que no dorso daquela “Falange,” então
explorada pelo domínio militar e pelo sistema de TV, forjou-se o temido Comando
Vermelho, que agora ganha status de terrorista, através de leituras
empreendidas no exterior, e no Brasil. Aliás, era justamente desejável que, apesar
da saudade deixada pelos formadores ideológicos, fosse aperfeiçoada uma educação
alternativa e eficaz que pavimentasse a lacuna que ficou com a partida dos
presos políticos.
Aquele trabalho realizado
pelos presos políticos na masmorra da Ilha Grande, foi muito importante.
Importantíssimo! A despeito do pouco tempo que tiveram, sob a direção de um
sociólogo Carioca muito competente. Aquele trabalho, não obstante terem
ocorrido alguns transtornos, gerados pela Ditadura Militar, foi imprescindível
para recuperação de alguns presos comuns, marginalizados pelo sistema. Aquele
trabalho foi resultado de uma compaixão extraordinária! Aliás, fora da esfera
militar, o Carioca da Gema do Ovo é propenso a ter compaixão do outro e
elevá-lo até a medida do humano, demasiado Humano. Nietzsche pensa assim para um
mundo concreto, e o seu Pensamento; sob certos aspectos, muito se aproxima do Pensamento
Carioca. Por isto e por outras realizações, Nietzsche é um coração compassivo!
Se ao Carioca for permitido estender a mão para retirar o outro do flagelo, ele
o faz com absoluta compaixão. Desde que Carioca da Gema do Ovo. A propósito, eu
mesmo, que vos escrevo estas linhas; moi meme. Quando no Rio de Janeiro precisei de ajuda
jurídica e aconselhamento para erradicar perseguições no trabalho policial
militar, os Cariocas autênticos, mais Dom Marcos Barbosa – Monge do Mosteiro de
São Bento – no Rio de Janeiro e Dom Eugênio de Araújo Sales, Cardeal Arcebispo
do Rio de Janeiro, todos de saudosíssima memória, tiveram compaixão da minha
pessoa humana e me ajudaram a superar aquela demanda delituosa. Ainda neste
sentido, há na Literatura, entre outras, duas grandes personalidades mundiais:
Santo Afonso Maria de Ligório e Friedrich Nietzsche que, embora, não sendo
brasileiros, podem ajudar a estudar o Coração Carioca. Assim como o Pensamento
Carioca, preconizado entre aquelas pessoas que receberam excelente escolaridade
em favor da Vida Humana. O Carioca Humanizado pensa valores fundamentais que
muito se aproximam do Pensamento de Nietzsche. Até mesmo a Aristocracia Carioca,
quando bem escolarizada, é de uma humanidade surpreendente.
Agora, estou recordando uma
manifestação elevada de humanidade admirável. Pois sim! Certa ocasião, eu
estava de serviço na Praça General Osório, na Zona Sul da cidade do Rio de
Janeiro, quando percebi que a Sra. Nara Leão – de Saudosíssima Memória – vinha
em minha direção, a nossa Musa da Bossa Nova. Bem a propósito, Nara Leão foi responsável
pela migração de artistas baianos para o Rio de Janeiro, por exemplo, Maria Betânia
que foi para o Rio a convite de Nara Leão, para substitui-la em uma iminência
de teatro. A propósito, além da dificílima tarefa de substituir a Nara Leão, o
nome de Maria Betânia puxou para o Rio a Caetano Veloso, Gilberto Gil e Gal
Costa. Além destes, os Novos Baianos também foram para o Rio de Janeiro.
Assim, cortês e educadamente,
ela solicitou a minha atenção para com as babás e com os bebês, que eram
trazidos para o Sol daquela Praça, atravessando uma a avenida de trafego intenso.
Imediatamente, agradeci e desloquei-me para uma posição estratégica visando a
auxiliar as pessoas que a Sra. Nara Leão havia mencionado. Depois, comecei a
refletir: que a Ilustre Artista Brasileira, segundo publicações, que eu tinha
acesso, achava-se portadora de uma patologia complexa, que embora não a
impedisse de andar, era de graves riscos de morte. Naquela ocasião, pensei, o
que leva um ser humano a preocupar-se com o outro, mesmo sabendo que a sua vida
corre riscos patológicos. Somente pode-se compreender pela índole pessoal e pela
elevada formação escolar.
Santo Afonso Maria de Ligório,
jovem advogado de família muito rica, perdeu uma causa porque o juiz havia sido
“comprado.” Portanto, Santo Afonso teve compaixão da humanidade; abandonou o
conforto do trabalho jurídico e foi para o campo evangelizar pastores de cabras
analfabetos que eram tratados como os animais que apascentavam.
Narra-se que Friedrich Nietzsche,
filósofo alemão, também estudado pela pedagogia, que certo dia, ele caminhava
por uma rua de Turim no Norte da Itália, quando avistou um carroceiro
espancando um cavalo que não conseguia andar depressa, devido à sobrecarga da
carroça. Nietzshe sentiu compaixão para com cavalo, dirigiu-se a ele, ajoelhou-se,
pôs a bibliografia que levava no chão, abraçou o pescoço do cavalo e pediu perdão
por toda a humanidade; depois; Nietzsche começou chorar compulsivamente e caiu
inconsciente. Aliás, as lágrimas vertidas pelo filósofo irrigaram as consciências
das pessoas que viam de perto o evento de Nietzsche e, aquelas lágrimas levaram-no
a sentir as dores da “Casa Comum.” Laudato si. Pois que, em geral, as lágrimas têm
um sabor ecologicamente ácido para pessoas comuns. Portanto, naquele momento em
que Nietzshe chora pelo cavalo, pelo sabor ácido de uma natureza combalida, também
chora pela Humanidade. É um momento de profunda compaixão, demonstrado por
Nietzsche. Neste sentido, Nietzsche pode ser considerado um perfeito “Carioca
da Gema do Ovo.” Exemplo a ser seguido!
Neste trabalho, observando
esses exemplos de compaixão, também é muito oportuno, pensar o trabalho de Paulo
Freire, numa perspectiva de propor a Pedagogia da Esperança. A propósito desta
leitura, quando Paulo Freire esteve preso, veio-lhe um oficial do quartel, em
que o Pedagogo estava recolhido, propondo-lhe que alfabetizasse os recrutas
daquela instituição militar. Então, Paulo Freire argumentou que se achava
naquele estado de prisão por desenvolver um projeto de alfabetização, para as
classes menos favorecidas. Portanto, em síntese, no que consiste aqui essa
abordagem pedagógica? É simples, e podemos voltar à prisão da Ilha Grande, para
fazer a releitura daquele ambiente faminto de Pedagogia; demonstrada na medida
em que homens de elevada formação voltavam-se para os prisioneiros comuns; na
maioria analfabetos e truculentos, tratados pelos servidores públicos daquele
sistema carcerário como animais. Então a Generosidade Carioca, torna-se nítida
quando se pode ver Nietzsche abraçado ao pescoço daquele cavalo, pedindo perdão
por toda a humanidade. Também pode-se ler Santo Afonso Maria de Ligório,
abandonando os Fóruns suntuosos e confortáveis da Justiça Italiana, para
conviver com pastores de cabras analfabetos e oprimidos, vivendo em condições
sub-humanas e quase idênticas aos animais que apascentavam.
A propósito da leitura de Nietzsche,
Nhinhinha (de nome Maria, recebido na Pia Batismal) – personagem do conto “A
Menina de Lá,” da autoria de João Guimarães Rosa – chamaria Nietzsche de “Menino
Pidão.” A propósito de Nietzshe ter pedido perdão a um cavalo. Não pelo fato de
ter sido um cavalo, mas, de ter que pedir perdão a um animal, dito irracional,
por toda a humanidade. Por outro lado, Nhinhinha chamaria a Doutora Nise da
Silveira de “Menina Grande,” por ela ter humanizado o tratamento psiquiátrico,
utilizando para os pacientes, papéis e cores para desenhos e construções de
linguagens. Era a Ternura Alagoana – Doutora Nise da Silveira era natural de
Alagoas –, associada à Ternura Psiquiátrica. Ela própria, Nhinhinha, que vivia
a maior parte do tempo sentadinha em um pequeno tamborete; feito exclusivamente
para ela; e que aparentava ser uma criança excepcional, tinha uma relação
admirável com as cores. Assim é que ela – sentadinha no banco – pedia coisas
que desejava e que misteriosamente aconteciam. Porém, se alguém lhe pedia algum
milagre, ela respondia: “deixa... deixa...” Em certa ocasião pediu que lhe
trouxessem pamonha com goiabada, em geral, as pamonhas são embaladas com palha
de milho; de sorte que palha e conteúdo são de cor amarela. Logo, chegou uma
senhora com as pamonhas desejadas. Doutra feita, a meninazinha pediu que lhe
viesse um sapinho, com pouquíssimo tempo, veio-lhe um rãzinha do brejo
verdíssima. Daí, no sobre tempo, Nhinhinha passou a correr e a pular. “Adivinhou
passarinho verde?” Arguiu Tiântonia. Depois, a menininha relatou a Tiântonia –
integrante da família de Nhinhinha – que a sua morte estava próxima. Às vezes,
ela pronunciava um palavra solta: “Ele te xurugou?” Ou “Eeu tô fazendo saudade.”
“Tatu não vê a lua...”
Nhinhinha estava no quintal,
vestidinha de amarelo, amarelo da cor da gema do ovo. Assim é que a cor do
amarelo, da roupa da Menininha contracenava com o verde das árvores do quintal
e com a paisagem do brejo, então verdíssima. Agora, não se sabe por que razão ela
previa a sua morte.
A propósito da morte, em certa
ocasião, sua genitora. A “menina grande,” adoeceu. Então pediram à Nhinhinha
que curasse a sua mãe. Ela ponderou, “deixa...deixa...” Mas, em seguida
levantou-se, foi ao quarto de repouso e com os seus bracinhos curtos, abraçou
efusivamente a mãe enferma. Dessa forma, antes que ela saísse de junto da mãe,
esta levantou-se, foi se cuidar e depois, logo passou a cuidar das labutas do
cotidiano. Em outro momento veio a seca; que ameaçava esturricar o brejo e
destruir toda a vegetação. Pediram à menininha que quisesse a chuva. Ela
argumentou: “Mas, não pode, ué.” Aí explicaram a ela que sem a chuva não se tinha
o leite, o arroz, a carne, os doces, as frutas, o melado. Então, ela viu um
arco-íris; quis a chuva; e aquela parte da Terra encheu-se de um verde
abundante e brilhante. Semelhante ao verde que a pomba trouxe a Noé nos dias de
ocupação da Terra.
Assim é que fizeram o caixãozinho
de Nhinhinha cor-de-rosa; lembrando a incidência do Sol que ameaçou queimar a Terra, mas o Sol passou
brilhando, bem como os enfeites verdes abundantes, recordando a natureza
renovada de verde brilhantíssimo. Uma outra Arca. Data vênia, essa miniatura da
Arca de Noé, trazia no seu bojo fragmentos de linguagens proclamadas por
Nhinhinha; ao longo de sua vida; ao longo de sua sabedoria. Pois sim, aqueles
enfeites verdes e brilhantes correspondem a alguns signos desejados para a Terra.
Uma Terra que pode oferecer leite e mel. Sendo que o seu caixãozinho, de Anjo,
tinha que ser cor-de-rosa, porque a cor-de-rosa é um atributo indispensável
para a releitura da Terra, que oferece o limiar da maturidade. Plantada, no
seio da Terra a menina vai amadurecer. Por isso, é que ela é canonizada pelo
seu povo: “Santa Nhinhinha!” Todavia, quando ela socializou a morte, logo,
Tiântonia ralhou com ela. Pouco tempo após, Nhinhinha faleceu; então Tiântonia
relatou o que a ela, Nhinhinha, socializou, e que, por isso, ela havia ralhado.
“Mas, caixão de Anjo tem que ser branco.” “Ela quer cor-de-rosa.” Não se
discutiu mais. Veio o caixãozinho cor-de-rosa, com enfeites verdes e brilhantes.
Agora, a cor-de-rosa pode lembrar o Cristo perante os soldados romanos, que lhe
impuseram uma coroa de espinhos e lhe envolveram com um manto vermelho. Ainda
assim, a cor-de-rosa pode ser lida como intermediária entre a Crucificação, a
Morte e a Ressurreição do Cristo, que passou a verter mais Sangue Vermelho, quando
flagelado e fixado na Cruz. Portanto, a cor-de-rosa, também, pode ser lida como
um caminho que vai enrubescendo até alcançar a Cor do Sangue Vermelho de Cristo.
Dessa forma, há pelo menos três dimensões estéticas em que a cor-de-rosa se
aproxima do Sangue de Cristo. Logo, propondo uma hierarquização das cores, o Cristo,
primogênito do Pai Eterno em primeiro lugar, verteu Sangue a caminho do
Calvário e na Cruz que lhe foi destinada. Ah! Sim. Os “enfeites verdes e
brilhantes;” do caixãozinho lembram a Arca de Noé. Ele precisa saber das cores
da Terra, para desembarcar gentes e dons da natureza. Noé valeu-se de uma pomba,
para lhe informar o estado da Terra a ser ocupada.
Em um primeiro momento, Noé
solta a pomba; esta não demorou muito e voltou para a Arca. A pomba, então,
trouxe a cor de um mundo vazio. Noé refletiu: que ainda não era o momento
adequado. Tempos depois, soltou a pomba outra vez e ela retornou com as
patinhas molhadas. Pois que ela trouxe a cor da água. Pela cor da água, Noé
pensou: não é tempo ainda, Passados alguns dias, voltou a soltar a pomba e ela
retornou com os pés sujos da lama. Noé tranquilizou-se. Perante a cor da lama, admitiu:
Não era o momento ainda de promover o desembarque, porém, os signos trazidos
pela pomba deixavam muito óbvio que o desembarque total estava já muito próximo.
Foi então que Noé soltou a ave, ela retornou trazendo no bico uma folha verde e
brilhante, como os enfeites do caixãozinho de Nhinhinha. Aí Noé pensou: a Terra
está propícia, e esvaziou a Arca, fazendo descer gentes e animais, para viver a
Esperança. Parece que Noé acreditou que “a Esperança não decepciona.” Nhinhinha
acreditou na Esperança e as suas convicções não a decepcionaram. Ela tornou-se
enérgica e fortalecida na sua fé.
A bem da Esperança, Nhinhinha fraturou
as costelas de um paradigma que há séculos presidia aquela parte da humanidade;
quando esta exigia caixões brancos para sepultar criancinhas.
Voltando à Ilha Grande, ali se
edificaria a solidez de uma Pedagogia da Esperança, inédita no sistema
carcerário brasileiro, mas que pode ser praticada nas demais prisões do Brasil.
Logo, uma Pedagogia quiçá inspirada em Paulo Freire. No entanto, isso não
aconteceu, embora a Esperança freireana é sempre de bom alvitre, tanto para
pessoas encarceradas, quanto para demandas sociais oprimidas e de periferias. De
certo que, essa prática Pedagógica é um combate, ainda que provisório, mas é um
combate. Portanto:
Sou um combatente
provisório
De uma causa quase
eterna no homem.
Acredito ter como
bandeira
Se não um sonho
perfeito
A melhor utopia
possível.
Alex Polari de
Alverga
Agora, posto à prova por
presos políticos no presídio da Ilha Grande. Mas, os presos políticos não permaneceram
por longo tempo. Porém, o escasso tempo em que ficaram lá na prisão, trabalhando
nas áreas da educação e da cultura, resultaram em muito bom proveito. Bem a
propósito, o método de Paulo Freire foi pensado para as periferias sociais,
para as pessoas em situação de risco iminente. É oportuno refletir que a Pedagogia
da Esperança, quiçá, pode ter sido estudada por alguns presos políticos na Ilha
Grande. A Esperança em Paulo Freire pode transformar prisioneiros em pessoas
humanas admiráveis. Pensando Paulo Freire, é indispensável ter fé na esperança
do homem libertado da opressão. Por isto, é que o homem erigido pela Esperança
pode ter fé e compaixão. Assim persiste, que a fé mais a esperança é igual à
compaixão. Esta equação linguística leva à escuta de Dom Paulo Evaristo Arns.
Portanto, é sempre salutar pensar a esperança sem, jamais, correr o risco de perde-la.
Assim pronunciou Dom Paulo Evaristo Arns quando ocorreu o lamentável episódio
que vitimou a sua irmã biológica, Doutora Zilda Arns, fundadora da Pastoral da
Criança. Ela se achava em uma Igreja no Haiti, tratando da assistência
infanto-juvenil, quando ocorreu um terremoto que ocasionou o seu óbito e das
pessoas que se encontravam reunidas naquele espaço. Logo que as mídias
brasileiras passaram a noticiar o lamentável episódio, um repórter foi à
residência do então, Cardeal Emérito da Arquidiocese de São Paulo, para colher
mais informações. Dom Paulo Evaristo achava-se muito enfermo, não tendo
condições de atender pessoalmente ao homem da imprensa, mas, a respeito da
morte de sua irmã, o que Dom Paulo já sabia, mandou dizer ao repórter: “jamais
perder a Esperança.” Muito bem! Pois o apóstolo Paulo afirma que a “esperança
não nos decepciona.” (Rm 5,5).
O fato é que Dom Paulo Evaristo
– mesmo enfermo – teve um insight luminoso sobre a Esperança. O homem da
Imprensa saiu satisfeito, porque Dom Paulo Evaristo não fazia acepção de
pessoas. A propósito, Dom Paulo Evaristo trabalhou enquanto pode, para por fim aos
crimes perpetrados pela da Ditadura Militar, ajudado pelo Rabino Henry Sobel e
por Autoridades Evangélicas. Juntos, debruçaram sobre documentos confiáveis, que
resultaram na construção de um acervo avaliado em cinco mil páginas e
depositado na Inglaterra, por garantia de preservação. Desse acervo, foi
publicado um texto menor – uma espécie de resumo – em que se acham os fatos
mais estarrecedores daquele período dos “Anos de Chumbo”.
Naquele período de “Chumbo,” a
Sociedade Judaica no Brasil sofreu dois golpes mortais: os assassinatos de Iara
Iavelberg e de Vladimir Herzog. Iara Iavelberg – integrou a luta Armada e foi
companheira de Carlos Lamarca – foi assassinada pelo Estado Repressivo em Salvador,
na Bahia. Já Vladimir Herzog que foi assassinado pelo DOI-CODI, nas
dependências de um quartel do segundo Exército, em São Paulo. Vladimir Herzog viria
prestigiar o Sertão da Bahia, trabalhando com Glauber Rocha na construção do
filme Deus e o diabo na Terra do Sol. Mas, acontece que ele venceu uma Bolsa de
Estudos na Inglaterra e teve que viajar para assumir os estudos.
A morte de Vladimir Herzog até
hoje, entre outas vítimas de crimes hediondos, envergonha o mundo civilizado. O
fato é que, estudiosos na área, constataram que ele foi assassinado em um espaço
de uma Instituição Austera e Completa – de acordo com a legislação brasileira –
e depois levado para outro espaço da mesma instituição, onde foram forjadas
condições vergonhosas de uma prática de suicídio naquela instituição militar.
Dessa forma, o corpo de Vladimir Herzog foi manipulado para inocentar agentes
do Crime Organizado Oficial, atribuindo à vítima as culpas pela sua morte.
O curioso é que os Judeus
Brasileiros, descendentes de Abraão, foram integrados nas lutas possíveis,
visando à libertar este país de uma ditadura monstruosa. Por exemplo, aqui
estamos estudando duas vítimas que tomaram as suas vidas em favor da libertação
deste País. Entre outras vítimas. Então, povos que devem ser respeitados até
pelos horrores de que foram vítimas nos campos de concentrações nazistas.
Agora, voltamos a Dom Paulo
Evaristo, um dos maiores defensores dos Filhos de Davi, pode-se então considerar
o seu espírito solidário e comunicativo. Um certo dia de atendimento ao
público, uma jovem repórter quis saber de Dom Paulo Evaristo sobre a eleição de
um Papa; a moça queria saber dos detalhes. Ele respondeu, atribuindo à moça a
sua possibilidade de concorrer à eleição pontifícia, “se você estivesse lá, eu
votaria em você.” Pois bem, Dom Paulo Evaristo tinha um espírito abençoadamente
comunicativo.
Agora, por um momento,
entramos em uma atmosfera paulina com o apóstolo São Paulo, o Cardeal Dom Paulo
Evaristo e o pensador Paulo Freire.
A respeito de Paulo Freire,
neste ambiente de leitura, convém refletir sobre a Pedagogia da Esperança no
sentido mais estrito do termo. O que muito pode contribuir para escolarização de
prisioneiros e demandas sociais periféricas, através, inclusive, do jogo de
cores adequadas. Prática ainda a ser implementada com êxito em todo o Brasil.
Sempre levando em conta que os hippies foram mestres, além das letras, nas
leituras de cores e artefatos simbólicos. É imprescindível fazer justiça ao
Pensamento Hippie. Portanto, pode ser até que os hippies e outros defensores místicos,
por exemplo os seguidores do Dalai-Lama, procurassem descobrir a cor da
eternidade nas linguagens do mundo. Assim como, também, através de outras
leituras e outros tantos materiais logísticos, pensados e praticados em uma
perspectiva, da criação, também, de uma Metodologia da Esperança, visando à
condução do educando à percepção das formas de valorização da pessoa humana e
da valorização do processo educativo, que liberta as pessoas do cativeiro da
ignorância. O fato é que, superando a ignorância espiritual, encontra-se a cor
da Eternidade, desse modo, a Eternidade nada mais é que um complexo de signos
coloridos que no presente levam a uma dimensão dialógica. Esta é a lógica da
Esperança que apresenta o homem no caminho da salvação em um contexto hippie.
Já Os Meninos de Deus – com os seus textos escritos e publicados – trabalhavam
para encontrar no homem a cor do Infinito. Isto foi maravilhoso! Porque,
segundo as leituras sobre as Sociedades Alternativas, a Eternidade está
intimamente ligada à Esperança. Sendo assim, estudemos:
Ah! Pois. Sim! Os hippies propugnavam – com as
suas artes coloridas – que a distância entre a Eternidade e o Infinito é muito
efêmera, e a Eternidade não é a mesma coisa que Infinito; porque a Eternidade implica
em ser elástica, podendo ser espichada, mediante um trabalho de libertação – podendo
ser mensurada no homem em termos de educação escolar. Isto porque a Eternidade,
entre outros, é um caminho de conversão. Enquanto aquela é caminho, o Infinito
é incólume, íntegro, completo, austero, intrínseco, é o espaço do convertido. Para
os Meninos de Deus é assim – . Portanto, a distância entre o homem, a
Eternidade e o Infinito, jamais poderá ser igual, mas, que pode ser alcançada
com sabedoria elástica.
A elasticidade aqui pode e
deve ser pensada, na medida em que a Sabedoria Pedagógica pode ser esticada,
visando à interrogação do sistema de confinamento, que encolhe o indivíduo, a
um espaço limitado por grades de isolamentos, sem uma percepção da amplitude do
mundo; a exemplo de prisioneiros e de trabalhadores explorados em situações análogas
à escravidão, submetidos a uma realidade de penúria extrema; como se as pessoas
não fossem humanas. Pois então, esta metodologia; até inspirada na cultura
tibetana; consiste em distribuir vários cartões de variadas cores, oferecidos
aos educandos que integram os grupos de trabalho, para refletirem sobre suas próprias
identidades mais íntimas. Assim é que, pelos testemunhos e relatos pós-prisão,
a masmorra da Ilha Grande, com prisioneiros políticos, foi atendida com
materiais possíveis para a Educação. Em outra linguagem prática, a Liberdade de
arguir cores e sabores é capaz de favorecer o desenvolvimento da Educação, no
ambiente em que ela é veementemente negada. Negada até por servidores púbicos
que deviam servir ao Estado de Direito nas pessoas dos prisioneiros, através do
apoio logístico disponível, para o resgate possível da Pessoa Humana. No entanto, sim, os cartões coloridos são
colocados à disposição do público atendido para que cada ator – pessoa que age –
selecione a cor com que mais se identifica; socializando a escolha perante toda
a classe ou turma. Daí em diante, o estudante ou pessoa educanda pode ser estimulado(a)
a agregar valores à cor escolhida, por exemplo, peças de roupas ou de utensílios
sociais, de sorte a favorecer, também, a leituras de textos; dessa forma,
contos, romances, crônicas e poemas – que os educandos(as) julgarem favoráveis
ao desenvolvimento do seu trabalho, Então, como exemplo, é possível imaginar
uma cor que se identifique com o texto: A Menina de Lá, da autoria de João
Guimarães Rosa. Logo, não é por acaso que os hippies construíam artesanatos
articulados com cores atraentes, que as pessoas não resistiam e os adquiriam
para usos e enfeites. Portanto, articular é preciso!
Trabalhar com cores, pode e
deve resgatar seres humanos “do fundo do poço,” agregando ma-
teriais, então desejáveis paras as transformações de suas vidas, se
for o caso. É neste sentido
que o indivíduo se torna humanizado. A Humanização
é típica da Escola Carioca, no sentido mais estrito do termo.
Mas, o que é a Humanização Carioca?
O Pensamento Carioca, naquela era do século
XX, foi propício a respeito da Humanização. Bem a propósito, o Rio teve um Poeta
Popular, denominado Gentileza, de nome José Datrino – natural do interior de
São Paulo – que compreendeu bem o Pensamento Carioca, escrevendo nas estruturas
de um viaduto Pensamentos louváveis com que se poderia articular os valores
humanos de valorização da vida. Através daquele trabalho sociológico de
profunda reflexão clássica, Gentileza descobriu a Clássica Elegância Carioca.
Clássica aqui é no sentido da elegância e da erudição mesmo. Gentileza deixou
uma empresa de transportes que mantinha no Rio de Janeiro, deixando-a aos
cuidados de familiares e dedicou-se à profecia. Tendo sido autor de muitas Linguagens.
Ainda, a propósito de Linguagens, por exemplo, é imprescindível estudar na Linguagem,
na Arte Hippie, na Música, no Cinema, na Literatura. Assim é que a este
respeito, Gentileza escrevia com cores fortes os apelos pertinentes do Coração
Humano. O curioso é que a poucos metros de onde Gentileza construía Lingaugens
de Artes, achavam-se os espaços públicos de torturas e de assassinatos do
regime militar. Então, o Poeta Gentileza, próximo daqueles centros de
extermínio humano preconizava um status de Profeta. A arte de Gentileza
higienizava as profecias de morte. Não se sabe ainda porque Gentileza não foi
preso e assinado pela Ditadura Militar. A morte da Ditadura Castrense estava
próxima, profetizada por Gentileza. Na verdade, Gentileza foi um Profeta
pós-moderno que foi angariado pelo Rio de Janeiro, e somente pode ser pensado
nesta perspectiva de PAZ. Ele vinha de uma situação financeira próspera no Rio
de Janeiro, mas abdicou da vida de empresário para tornar-se Profeta do
Cotidiano Carioca.
A morte, Inegavelmente, não
consumia a Beleza do Rio de Janeiro que o Poeta muito admirava. Embora
contemplasse a Arte do Poeta, parte do Rio de Janeiro não deixava de ser
inclinada à sofisticação de valores estremos. Isto é, o Rio não se deitava
sobre os escombros de vaidade estéril do regime militar. – É certo que o Gentileza
Profetizou, em meio a tragédias, essa realidade de valores –. Sendo que os
valores da Poesia recriam a contemplação do belo intrínseco. Aquele Belo que
está dentro da gente. Em razão das suas convicções profundas, o Rio de Janeiro –
culto e bem esclarecido – abomina veementemente a feiura indecorosa, por
exemplo, da promiscuidade carcerária e da exploração do homem pelo homem. Ora,
um classicismo social elegante, mas bem articulado, eleva a dignidade do ser
humano a uma Esperança Ágape. É isso que o Rio de Janeiro esclarecido e bem
escolarizado do meu tempo fazia.
A propósito, parece que o Pregador
Urbano Gentileza saiu do interior do Estado de São Paulo, onde nasceu, para
profetizar no Rio de Janeiro; depois de cumprir a sua missão, ele retornou para
o interior do Estado de São Paulo, onde veio a falecer. Ele é o autor da frase:
“Gentileza gera Gentileza.” Antes, de tudo – é oportuno lembrar – que Gentileza
foi um grande incentivador da Liberdade de Viver.
Visando à Liberdade da Vida,
homens que sentiam o peso do encarceramento, no presídio da Ilha Grande,
portanto, presos políticos, trabalharam para promover a erradicação da
promiscuidade carcerária, entre outras demandas delituosas que, naquela época,
ocupavam o lugar de políticas públicas eficientes; a serem implementadas pelo Estado
de Direito, na perspectiva da recuperação daqueles prisioneiros flagelados.
Assim é que chegava-se ao absurdo de servidores públicos defenderem a promiscuidade
carcerária e a exploração do preso pelo preso como normal, aceitável e “coisa bandido
mesmo.” Porém, sob coordenação sociológica alternativa os presos políticos na
Ilha Grande criaram grupos alternativos de Valores Humanos, que até faziam
debates sobre a Dignidade do Corpo Humano, visando a formar e a transformar indivíduos
conscientes, que muitas vezes vinham da delinquência infanto-juvenil e quando adultos
continuavam na vida do crime, porque lhes foram negadas a escolaridade regular
e a cultura primorosa, e a Qualidade Perene da Vida Humana. Estou escrevendo
estas linhas, porque eu vi o Rio de Janeiro pelo avesso. Assim é que, não
obstante tantas tragédias havia esforços hercúleos no sentido de humanizar o Rio
de Janeiro.
Agora, nesta perspectiva de
estudo, a Humanização Clássica Carioca é uma espécie de exorcização obtida por
meio de um trabalho pedagógico que liberta os indivíduos de tudo aquilo que lhes
submete à flagelação deplorável. Dessa forma, a promiscuidade carcerária, dentre
outras demandas delituosas – nos presídios –, leva à estigmatização erosiva. Aí
é que foi possível introduzir-se as cores praticadas como preenchimento de
espaços negados na infância, para formar cidadãos e cidadãs, inclusive nas
prisões e demais órgãos de repressão.
Aqui no sertão da Bahia, as
Reservas Indígenas Kaimbés e Kiriris têm uma relação admirável com as cores,
portanto, há nesses ambientes indígenas períodos designados para pintar-se com
cada cor escolhida. Entre os índios, há um contexto espiritual para as cores. Porque
elas têm tempos específicos para serem realizadas; assim como; partes do corpo
em que as cores podem ser aplicadas.
Neste contexto, convém
esclarecer que esta produção escrita não pretende, de modo algum,
supervalorizar a pessoa do encarcerado; mas, reconhecer o lugar humano que o
sujeito ocupa sob a tutela do Estado de Direito. Entretanto, circulavam informações
de que agentes públicos torturavam presos e condicionava-os a praticarem
promiscuidade carcerária como forma de “punição.” Mas, a atualidade do homem
decaído demonstra que a instituição pública não tem o direito de submeter o
homem à massa de manobra espúria. Dessa forma, o prisioneiro sai da cadeia pior
do que entrou.
Na atualidade, o Pastor
Antônio Carlos Costa, da Igreja Presbiteriana da Barra da Tijuca e coordenador da
ONG Rio de Paz, tem desenvolvido um trabalho admirável junto a pacientes carcerários
em situações de desumanidade absoluta.
Humanizar, nos ambientes
prisionais do Brasil, segundo a ótica do Rio de Janeiro, pressupõe resgatar as
pessoas do “fundo do poço” e trazê-las para a Luz da Vida. Sim, é óbvio que formar
cidadãos e cidadãs é uma tarefa de toda a Sociedade Civil Organizada, talvez em
comunhão com o Estado de Direito. Daí vai-se organizando a cada passo o soerguimento
da pessoa confinada entre os muros da prisão. Aí é que o trabalho do formador
alternativo provisório nas prisões do Rio de Janeiro, por exemplo, presos
políticos confinados a penitenciárias em condições de igualdade com presos
comuns, criaram uma realidade conturbada. Assim, é preciso definir os limites que
separam o prisioneiro da esfera institucional do Estado de Direito. Esse
trabalho implica em indignar-se perante qualquer forma de exploração do homem
pelo homem, principalmente, a exploração de valores de elevada força moral. Dessa
forma, é sempre de mais-valia para o carioca de elevada formação, a preservação
da Dignidade da Pessoa Humana em toda a sua Plenitude. Então, subsiste o
Orgulho de ser “Carioca da Gema do Ovo,” na medida em que essa cor áurea tinge
a aura do ser humano. A cor da gema é a expressão mais autêntica do Ser Carioca,
inclusive na Espiritualidade. É próprio do Cotidiano Carioca respeitar a
Espiritualidade Saudável. É próprio do “Carioca da Gema do Ovo.”
Portanto, o “Carioca da Gema,”
que é uma categoria de distinção social e moral, que não admite em nenhuma hipótese
a exploração do corpo. Assim é que a promiscuidade carcerária, por exemplo, é
extremamente repugnante para o “Carioca da Gema.” Dessa forma, é que em uma vez
que a Avenida Niemeyer teve que ser interditada, por causa da rolagem de uma
pedra muito grande, então um menino de feições tipicamente nordestinas passava
pelo local, e foi chamado de conterrâneo. Imediatamente, o menino retrucou: “Eu
sou Carioca. Carioca da Gema do Ovo.” O menino em foco vinha do Morro do
Vidigal e demonstrou que ser “Carioca da Gema do Ovo,” não quer dizer que a
pessoa seja economicamente superior a pessoas faveladas – por exemplo – mas que
a pessoa seja soberanamente humana. Assim, como pretende Guimarães Rosa. A
pessoa seja humana até “a escuma do bofe.”
Pois bem, tratando-se da “Gema
do Ovo” é ter o coração da cor de ouro. Não se admite uma cidadã ou um cidadão,
“Cariocas da Gema do Ovo,” que não tenham um Coração Maior que o mundo. Desta
forma, o Coração Carioca autêntico é áureo, é reificado no mundo, para ser grande
na vida e para fazer perpetuar o elevado carisma de Pertencimento Carioca. Logo,
a cor do ouro puxa outras cores para colorir as instituições austeras e
completas; pode até ser que os hippies tenham descoberto esses valores fora do Universo
Hippie; assim como os prisioneiros mais esclarecidos os tenha descoberto dentro
dos cárceres dos presídios sub-humanos. O fato é que a cor do ouro, pode,
inclusive contribuir para o olhar panóptico.
Então, ocorreu que como os
hippies já trabalhavam as cores como instrumentos de integridade plena em suas
obras de artesanatos atraentes; é bem provável que os formadores de opiniões no
presídio da Ilha Grande tenham praticado esses valores, passando a fazer uso
desta prerrogativa artística e moral. Assim é que as cores têm uma dinâmica
expressiva. Podem as cores trabalhar – também – a dinâmica do Universo colorido.
Por exemplo: há cores intrínsecas e extrínsecas. Estas; nós as revelamos ao
mundo; quanto às cores intrínsecas, permanecem dentro de nós e não as
revelamos, mas existem no âmago mais oculto do nosso ser.
O homem comum pode ser atraído
por uma parceira, devido à cor que ela veste e dá mais relevância às
potencialidades do seu corpo sensual. Lembremo-nos de que a sensualidade
excessiva gera concupiscências exorbitantes. Sendo assim – com o aumento dessa
forma de violência – todas as pessoas de vários gêneros são afetadas.
Sensulidade, sexualidade e
violência sexual têm suscitado no Brasil debates profundos. Por exemplo, os
crimes de feminicídios têm aumentado de forma assustadora; o que nos tem levado
a tomar posições radicais contra essa prática hedionda. Por isso, o Brasil deve
encorajar-se e combater acentuadamente esta dolorosa realidade.
Por outro lado, ao se
trabalhar com educandos ou educadoras, dentro ou fora das prisões; as cores
intrínsecas permanecem dentro do nosso silêncio interior, sendo que raramente
as percebemos. Por isto, não obstante à gama imensurável do colorido de que
dispomos dentro da “estrela azulada.” Sem pretender, o nosso eu é guardião de
um cabedal imperceptível de cores que existem, mas não são utilizadas.
Ah! Pois. A dinâmica das cores
é plural. Neste sentido, o Universo é muito colorido
Desse modo, entraram na
práticas efetivas, os trabalhos com as cores, inclusive a cor vermelha, para
simbolizar teorias comunistas e socialistas. Porém, jamais se pode esquecer,
que as cores que foram historicamente dominadas e compreendidas, em parte,
pelas “Falanges Vermelhas,” que, naquela época, inspiraram a uma rede de TV a
produzir e veicular a minissérie “Bandidos da Falange.”
É óbvio que, na atual
contemporaneidade, a cor vermelha alcança no Brasil e no exterior o status de
organizações terroristas, considerando todas as facções criminosas em ações
violentas. Isto é grave e põe em risco a Sociedade Humana e a Soberania das Nações.
Principalmente as nações vizinhas do Brasil.
Pois que, a Soberania das Nações
faz este País trepidar temeroso, atendendo às expectativas dos grupos
alternativos, na política e na vida castrense ambiciosa. Na política, a
violência implícita é mais perigosa, porque não ficam claras as armas
silenciosas utilizadas por políticos. Na paranoia castrense a violência é ameaçadora,
e ostensiva. Pois que, a pouco tempo o Brasil enfrentou uma tentativa de golpe
de Estado, tramado por militares de altas patentes avassaladoras. Todavia, nesta
perspectiva de leitura, pensemos nas cores da Bandeira Nacional – o que os últimos
golpistas não fizeram –. Então, pensemos no verde-e-amarelo, que se constitui
em apelo patético-positivista ao vigor nacional. O amarelo, tirado do verde tem
a cor da gema do ovo.
Agora, presumindo de oposição
ao sistema castrense, as cores passaram a instruir os grupos revolucionários,
causando pânico aos trogloditas do poder.
Mediante as leituras realizadas
por aqueles grupos de oposição. Desse modo, o Partido dos Trabalhadores (PT),
faz opção pela cor vermelha e leva o estudioso a reinscrever as leituras do vermelho
que o PT tornou de denotação cultural e ideológica, também, para resgatar as
manifestações culturais e ideológicas dos hippies de memória alternativa. Pois
que, é a memória hippie que melhor trabalhou o Universo Colorido. Partindo dessa
premissa, a cor manipulada pelo PT pode estimular os leitores oportunistas a
associar o PT ao Crime Organizado Comum. Assim é que outros Comandos podem
instituir a cor vermelha como instrumento de instrução de ideologias
delituosas.
A repressão dos “Anos de
Chumbo,” fez uso da cor vermelha para simbolizar os seus crimes hediondos. Por
exemplo, o então Bispo de Nova Iguaçu, Dom Adriano Mandarino Hipólito foi
pintado de vermelho quando sequestrado em sua diocese, e dessa forma, o poder demonstrava
a grife, quer dizer, a marca do autoritarismo do regime militar; que foi
extremamente covarde em suas práticas delituosas. Portanto, a cor vermelha era
manipulada pela Ditadura Militar, sempre que reprimia organizações civis, que
imaginavam estar a serviço do comunismo e do socialismo. Em síntese, a cor
vermelha foi um instrumento de crueldade exibido para o Brasil e para o mundo.
Além disso, a cor do sangue dos opositores presos, torturados e mortos
tornou-se o símbolo da vampiragem militar que, através de espancamentos e
homicídios, satisfazia as suas taras abominávies nos ambientes delituosos dos
quartéis.
Do lado oposto ao crime, lado
da PAZ, os hippies foram mestres competentes das leituras de materiais coloridos
legítimos e iluminados, que somente a gramática da Língua dos hippies permitia interpretar.
Os hippies sentiam os ônus morais e as trevas do regime militar que pesavam
sobre o Brasil. Portanto, a colorização definia quem era a favor ou contra o
poder hegemônico dos militares. Naquele contexto de revolução e luta armada, os
hippies não ostentavam nenhuma opção político partidária. Assim é que, lembro-me
ainda de uma jovem hippie que acampada com a sua comunidade em uma praça
pública do bairro do Catete, na cidade do Rio de Janeiro, ostentando um
retrovisor de automóvel com um brilho intensíssimo e preso à sua fronte
brilhantíssima. Logo, um transeunte, presumindo um signo de opção
político-partidária, quis saber do significado do retrovisor naquelas
circunstâncias e a moça respondeu: “É para você entrar na minha cuca, olhando
para o brilho.” O brilho era demasiado intenso e a cuca era o jeito de pensar
do mundo hippie.
Sim! o Movimento Hippie tem o
mérito de brilhar; e não obstante a era de trevas que oprimia o Brasil. Criar é
que era impávido. Portanto, o Pensamento Hippie cria luzes e linguagens
restritas a um universo particular, mas, têm que brilhar esses universos, como
o retrovisor de automóvel, preso à fronte da moça hippie na praça pública. Por
isto, no Universo Hippie, o integrante tem que se (re)inventar e criar uma
Língua iluminada, para dar conta do seu cotidiano; isto porque o cotidiano
hippie é marcado por grandes desafios a serem harmonizados e (re)inventados, porém,
ainda que em face desses desafios; o Hippie era a criação de um mundo que buscava
a Felicidade, através da leitura semiótica das cores criadas ou refletidas,
assaz pela natureza do mundo. Agora, nesse contexto da natureza, prevaleciam as
interpretações dos Hippies Pensantes, espécies de Gurus.
Atualmente, em circunstâncias
mais elevadas, parece que o Poeta Alex Polari de Alverga descobriu as cores do
Mundo Místico, criado pela espiritualidade do Santo Daime na Floresta Amazônica.
É bem provável que o Santo Daime pode ter criado a Felicidade, no interior da
alma humana e descoberto esta mesma Felicidade no sentido de criar, nas cores
luminosas da Floresta, os espaços de interação criativa com a fisionomia do
infinito. Sim! A natureza tem dado testemunho de que “criar é mais importante
do que ser feliz.” Diz a poesia baiana interativa.
Naquele século de trevas,
buscar a Felicidade nos centros urbanos e nos cárceres do regime militar era
labutar com um mundo naufragado nas profundezas do caos e da escuridão. Mas, a
natureza – Laudato si – é o locus da Liberdade. Outra vez pensada com
profundidade.
Para os hippies místicos, as
profundidades caóticas, trabalhadas com o coração, podem incrementar muitas luzes,
e podem levar o homem à reflexão profunda, mesmo nas praças públicas. Jamais a
repressão obtusa poderia impedir o Povo Hippie; posto à prova; nas metrópoles
obscuras ou nos labirintos das prisões de adentrar em um espaço de meditação.
Logo, o povo hippie, não poderia, jamais, ser impedido de entrar em seu mundo
peculiar. Mesmo em uma alienação absurda nem a uma alteridade estéril,
fundamentadas nos mundos da repressão implacável. Por isto, o Povo Hippie vivia
em comunidades, buscando a PAZ e o Amor ágapes, com sabor de Liberdades.
As Liberdades Hippies jamais poderão
ser criadas em termos de isolamentos monásticos, por exemplo, nem nas
profundezas das prisões. Mas é próprio dessa Liberdade abrir espaços dialéticos,
permitindo o diálogo com o mundo e o confronto dos contrários do mundo, com as
cores do mundo; isto é com as linguagens deste mundo. Posto que, naquela mesma
época em que os hippies propugnavam pela Liberdade de Viver no Mundo, um jovem
estudante foi preso, torturado e processado pelo Regime Militar por estar
portando um livro de capa vermelha. Pois sim, estudadas as perspectivas das linguagens
que pesavam sobre a humanidade, muitas vezes dilacerando-as, podia-se refletir sobre
o universo da “sociedade alternativa,” em que entre outros signos, a “Cuca”
correspondia à sede da massa cefálica.
É tanto que – a propósito da
“Cuca,” – naquela época, da Ditadura Militar do Brasil, instituiu-se um método
de tortura, denominado “Coroa de Cristo,” tão cruel quanto a coroa de espinhos
que os soldados romanos colocaram na Cabeça de Jesus Cristo. Dessa forma, a
coroa de ferro que os algozes utilizavam para torturar prisioneiros consistia
em colocar o instrumento férreo na altura da cabeça do prisioneiro. Sendo que o
arco era fixado na tez do massacrado por um parafuso que administrava apertos e
solturas na cabeça da pessoa do torturado e torturada. Na medida em que o arco
era apertado em torno da “Cuca,” isto é da cabeça da pessoa, os olhos pareciam
saltar das órbitas, até provocando cegueiras.
Assim, naquele universo hippie,
o cérebro era somente uma massa cinzenta capaz de erigir linguagens. Mas, a
cegueira transversal do sistema pretendia anular convicções vitais. Então, perante
o discurso de uma juventude revolucionária, o pensamento possível também era
cinzento, para manter de pé a pregação de uma juventude criativa que também
propugnava pelo “Amor Livre e pela Paz e Amor.” Desse modo, a Cultura Hippie criou,
também, a linguagem “Lelé da Cuca” para designar patologia mental, isto é, a
mente corroída pelas pressões das sociedades grotescas e extremamente
repressivas. Inclusive as loucuras que as pressões da chamada “Coroa de
Cristo,” provocavam naquele contexto histórico.
Naquele contexto, assaz
grotesco e repressivo, é oportuno repensar o termo “Lelé da Cuca”, à luz do
trabalho científico realizado pela cientista alagoana, Doutora Nise Magalhães
da Silveira, portanto alagoana da “Gema do Ovo.” Ela médica psiquiatra, realizou
uma atividade impensável, até para os tratamentos perversos, prescritos pela ciência
psiquiátrica daquela época, criando a Ternura Psiquiátrica. Oriunda da Ternura
Alagoana. Uma Ternura que levou a Doutora Nise da Silveira a surpreender a ciência
psiquiátrica do seu tempo. Ela começou a estudar medicina muito jovem. Portanto,
da Doutora Nise se pode dizer: uma nordestina de calibre férreo; miúda na
expressão física, gigante nas pesquisas do “Coração da Loucura.” Ela conseguiu
auscultar o “Coração da loucura” e teve compaixão do outro em um mundo
egoístico. Assim é que se pode afirmar que a Doutora Nise da Silveira fraturou
a espinha dorsal da invencibilidade da loucura, segundo a teorização brasileira.
Em outra leitura: uma dimensão estética e abrangente da Ternura Alagoana.
Embora a Doutora Nise estivesse no Rio de Janeiro, levou à limpidez uma herança
quase ancestral. Logo, a verossimilhança não pode acarretar estilhaços
perniciosos, tais como lidos na dolorosa lembrança da “Coroa de Cristo,” e
outros delitos militares, que levaram a Doutora Nise à prisão.
Então, conterrânea de Dom
Avelar Brandão Vilela, de Graciliano Ramos, de Teotônio Vilela e de Djavan,
entre outras personalidades exponenciais do elevado contexto alagoano. Doutora
Nise desafiou as ditaduras científicas e militares do seu tempo. Chegou a ser
presa pela Ditadura Militar, mas não desistiu do seu trabalho científico, dessa
forma, criou uma atividade de recuperação das imagens do Inconsciente em que o
paciente era estimulado a construir imagens à vontade. Assim, o paciente tinha
a mais plena liberdade de construir as suas imagens, edificadas em folhas de
papel em branco. Então, a administração do hospício em que a Doutora Nise
trabalhava retirou o apoio logístico (papéis e lápis), imaginando comprometer o
trabalho empreendido pela Doutora Nise e seus pacientes. Então, ela conseguiu
jornais velhos e materiais apropriados e deu continuidade ao trabalho. Foi uma
forma de os pacientes receberem mais estímulos. Eles podiam desenhar toda e
qualquer imagem ou linguagem que lhes atormentavam. Na verdade, nos desenhos em
jornais velhos, os pacientes podiam “massacrar” os entes hostis à força MENTAL
da Pessoa Humana. Por isso, fora dos tormentos do mundo e dos infortúnios, na
ante sala da morte, os pacientes psiquiátricos – a seu modo – construíam a PAZ
MENTAL, e a cor da loucura que os pacientes trabalhavam para erradicar. Portanto,
o que construíam tornava-os pacificadores. Em termos inovadores, foi possível à
Doutora Nise criar O MESEU DE IMAGENS DO INCONSIENTE, mediante estímulos incentivados.
Uma das maiores obras, pensadas e realizadas pela Doutora Nise da Silveira.
Daquele modo, ela evitou quedas trágicas nos buracos dos assoalhos dos
hospícios.
Pensadas e respeitadas as
teorias psiquiátricas do mundo, aproximemo-nos de Philippe Pinel, chamado o pai
da medicina psiquiátrica. Óbvio que Philippe Pinel tem o mérito de salvar os
pacientes dos tratamentos convencionais, salvando-os das correntes, dos
encarceramentos em masmorras, dos espancamentos, dos vômitos forçados e etc. Ah!
Sim. Por isso, no Rio de Janeiro, Pinel é sinônimo de louco. Fulano de tal é
Pinel; equivale a dizer: fulano está Louco.
Na Verdade, Philippe Pinel era
médico e zoologista, que fez opção pela medicina psiquiátrica, depois que um
amigo tornou-se doente mental, adentrou em uma floresta e foi devorado por
lobos. Este incidente doloroso pode ser comparado ao infortúnio de uma mãe que
vivia com um filho bebê em um barraco na antiga favela de Alagados, em Salvador,
na Bahia. O barraco, construído sobre palafitas, em cima de lama e dejetos,
tinha um buraco em uma tábua do assoalho improvisado. Em certa ocasião, aquela
mãe saiu para trabalhar, deixando o bebê trancafiado. Porém, o bebê caiu sobre
a lama e os dejetos daquele manguezal deteriorado, pelo buraco existente no
assoalho do barraco e teve o seu corpo devorado por ratos.
Entre lobos e ratos, a vida
humana muito interessou à Doutora Nise que passou a labutar para impedir que os
seus pacientes psiquiátricos caíssem nos buracos dos assoalhos corroídos da
burocracia maligna. De sorte que, aqueles pacientes tornaram-se mais produtivos
e houve então uma produção libertadora. Isto é, contemplados com folhas de
jornais, os pacientes tinham inspirações profundas, por exemplo, de esmagar
gravuras e letras em que apareciam retratos imaginados dos seus opressores e
das situações que os levaram à loucura. Ou seja, os levaram a serem “lelés das
Cucas.” Não se sabe se a Doutora Nise estudou os hippies e os Meninos de Deus;
pois ela alcançou “o Coração da Loucura” em detrimento do “Coração de Pedra”,
que caracterizava o poder dominador e esmagador da Humanidade Brasileira. Logo,
considerando o trabalho profícuo da Doutora Nise da Silveira, deve haver um
nexo entre o “Lelé da Cuca” e o Coração da Loucura.” Este é harmonioso e
promotor da PAZ. Ah Sim! Há casos em que os pacientes, pacificamente tratados,
podem associar a sua patologia a origens remotas de opressão de um passado que
se faz presente nas letras e gravuras daqueles periódicos e que os atingiram
dolorosamente nos âmbitos das famílias ou dos agentes das crueldades exteriores.
Assim, é oportuno resistir. É que muitos pacientes percebiam aqueles agentes nas
gravuras e letras dos jornais. Sendo assim, era relevante eliminar linguagens
hostis, tais com os Hippies resistiam, criando estereótipos do arbítrio penoso da
opressão implacável e superavam nos domínios das Artes os signos da anti-liberdade
de viver.
Os hippies resistiam, entre
outras demandas, às pressões do consumismo exacerbado. Nesta perspectiva de
leitura, o sentido de qualquer forma de repressão para o hippie provém da mais
erosiva manifestação da loucura, para os Meninos de Deus, qualquer forma de
repressão, por parte de qualquer sistema, é um escândalo. A propósito, a
sociedade civil organizada cometeu um erro histórico gravíssimo por não ter
estudado devidamente a Cultura e o Pensamento Hippies.
Agora, é oportuno refletir que
naquele ambiente de pulverização de linguagens surge uma personalidade que
encantou a civilização carioca: o Poeta Urbano Gentileza, que escrevia com
cores pesadas debaixo do viaduto do gasômetro, no Rio de Janeiro, o sentido da Paz.
Assim, Os ônus que incidiam sobre a PAZ e o AMOR, pregados por Gentileza não
eram propriamente do Rio. Somente depois é que veio o esclarecimento, Gentileza
era paulista. Tendo sido confundido com uma personalidade hippie do Rio de
Janeiro. Porém, Gentileza era um Poeta solitário e a sua cor era muito densa e
contínua. Ele não chegou – segundo as leituras dos materiais daquela época – a
ser preso. Isto não era possível porque Gentileza não era daquele mundo, era do
mundo da PAZ E DO AMOR, também os Poetas Hippies trabalharam muito nesta
perspectiva.
É, no mínimo curioso mas,
acontece que o Pensamento Hippie elevava a primazia do “Amor Livre,” muito
acima das especulações tão somente sexuais e sensuais. Ainda, segundo o
Movimento Hippie, a realidade saudável é uma concepção do Amor Ágape praticado
na vida do Universo. Isto é, o homem perante a terceira ecologia. Segundo o
entendimento hippie, a liberdade do amor consiste no direito de expressão do
indivíduo, sempre que respeitadas as idiossincrasias. Dessa forma, a criação hippie, inclusive a Arte
do Corpo, estaria comprometida com as estruturas internas do ser pensante. Por
exemplo: o retrovisor de automóvel, preso à fronte de uma jovem hippie,
propunha a libertação estética expressiva em que o corpo e o mundo estão livres
ou construindo liberdades sem repressão, sem torturas, sem assassinatos, sem
catástrofes morais e sociais; quer dizer: a mente em harmonia com a natureza
intrínseca da PAZ. Favorecendo também a semiótica; que tem um papel
preponderante na leitura da PAZ PROFUNDA.
Nesta perspectiva de leitura
em favor da PAZ, para os hippies, a violência de qualquer natureza é produto da
loucura, para os Meninos de Deus é resultado de um grande escândalo.
Os hippies propugnavam pela VIDA!
Portanto, entendiam que a Ditadura Militar no Brasil era resultado de uma paranoia
mortal crudelíssima. O movimento hippie só não conseguia entender como era
possível a logística em que o homem recrutado para servir ao Estado de Direito,
sob a égide da Constituição da República Federativa Brasil, concebida pelos
militares em 1966 e que inclusive criminalizava torturadores e assassinos com
requintes da mais extrema crueldade, principalmente, em nome de uma Ordem e de
um Progresso falidos, servissem para roubar, torturar e matar, utilizando o
próprio aparato logístico da República Federativa do Brasil. Assim é que as
linguagens revolucionárias daquela era de trevas tornaram-se de domínio público
para a juventude esclarecida daquele tempo.
Assim é que muitos jovens se
rebelaram e ingressaram na luta armada, revoltados com as práticas hediondas do
banditismo oficial, submetendo o próprio Estado de Direito ao crivo do Crime
Organizado Oficial. Logo, os hippies sentiram a necessidade imperativa de criar
um mundo de PAZ, inclusive solidário com a juventude atuante nas lutas e
atentados, através da prática da Meditação. Assim é que os hippies Descamparam a
uma ponta idelogicamente atraente do mar incólume da Bahia, denominada Arembepe
e fundaram uma espécie de paraíso antropológico e um mundo verde em harmonia
com a natureza que atraía até pessoas do exterior. Na verdade, pelas mãos
hippies, o mundo verde de Arembepe, inclusive o verde do mar, proclamavam um
apelo à PAZ PROFUNDA. Mas, acontece que em contrapartida, para justificar os
seus crimes hediondos e otimizar a loucura dos quartéis, o Regime Militar passou
a acusar os hippies de abusos com drogas mas, não consta que o sistema militar os
tenha reprimido. Porém, em lugar de repressão às drogas fizeram da cor vermelha
um signo de representação assaz comunista, o que era do agrado fácil das elites
brasileiras; assim como forma de estIgmatização social vergonhosa do sangue das
pessoas presas por opções políticas e que vertiam o seu sangue nos Cárceres do
Estado de Direito. Portanto, a obsessão dos militares pelo sangue humano; uma
versão tardia do Conde Drácula; convertendo os quartéis em antros de
carnificina sanguínea e torpe, que assolava grande parte da Humanidade Brasileira.
Porém, a repressão militar não conseguia massacrar os hippies e os Meninos de
Deus pelas suas convicções de PAZ. Estes, eram definitivamente contrários a
qualquer forma de violência. Portanto, os repressores estabeleceram uma fixação
dialógica das cores e matizes em que desgastavam a opinião global. Logo, as
cores da Copa do Mundo e de outros times de futebol contaminaram o Brasil e tornaram-se
reificação da mediocridade grotesca.
Naquele contexto, os militares
edificaram uma publicidade em adesivos colados, principalmente, a parabrisas de
automóveis. Era algo semelhante ao retrovisor, colado à fronte da jovem hippie.
Naquele adesivo, lia-se: “Brasil: ame-o ou deixe-o.” Então, um jornal do Rio de
Janeiro respondeu com uma charge em que um aeroporto muito opaco, com uma
aeronave supersônica, secundada por um fila gigantesca, entrando na aeronave
sob um grande cartaz em que se lia: “O último a embarcar, desligue a luz do
aeroporto.”
A respeito do que acima se
acha escrito, o estudante de economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro,
Stuart Edgar Angel Jones, nascido no dia 11 de janeiro de 1946, em Salvador, no
Estado da Bahia e dado por falecido, segundo narrativa Oficial, no dia 14 de
maio de 1971. Se verossímil esta data – quer dizer: próxima de uma quase
verdade – então, Stuart Edgar Angel Jones foi assassinado aos 25 anos de idade.
Embora o seu corpo nunca tenha sido
encontrado, não obstante os esforços hercúleos empreendidos pela sua genitora,
Zuzu Angel Jones.
A Menina Zuzu
nasceu de família humilde no dia 5 de junho 1921 em Curvelo, Minas Gerais,
tendo migrado ainda muito jovem com a sua família para Belo Horizonte. Nesta
capital, a Menina Zuzu (Zuleika de Souza Netto) ajudava sua genitora costureira
nas atividades de produção. Em Belo Horizonte, Zuzu conheceu, visitando a casa
de seus pais, o cidadão, Norman Angel Jones. Este de nacionalidades inglesa e
norte-americana, com quem veio a se casar.
Assim é que, a
família da Mulher Zuzu Angel mudou-se da capital mineira para Salvador, na Bahia,
onde Stuart Edgar Angel Jones nasceu. Ainda, residindo na capital baiana, a
Mulher Zuzu Angel de elevada sensibilidade, percebeu o colorido de motivos
afrodescendentes que circulavam pelas ruas de Salvador e, também, a pujança da
temperatura contagiante da Roma Negra. Tornando-se reconhecida enquanto
estilista, a Mulher Zuzu Angel mudou-se para o Rio de Janeiro, visando a atender
a clientela daquela parte do Brasil.
*****************************************************************************
Minha gente eu vou embora, mineiro está me chamando! Mineiro tem esse
jeito chama a gente
e vai andando...
*****************************************************************************
No Rio de
Janeiro, a Trabalhadora Zuzu Angel aperfeiçoou a sua grife produzindo com garra
uma moda vibrante e inovadora que fascinou o Brasil e encantou os Estados Unidos
da América. Sendo que naquele período de sucesso, a Trabalhadora Zuzu Angels
foi atormentada com a prisão do seu filho primogênito Stuart Edgar Angel Jones.
Pode-se afirmar que naquele lamentável episódio, teve início o martírio da Mãe
Zuzu Angel. Agora pois, pode-se relembrar que o Ilustre Revolucionário Baiano,
Stuart Edgar Angel Jones passou a integrar, no Rio de Janeiro, o Movimento
Revolucionário Oito de Outubro – MR-8 – e a luta armada contra a Ditadura
Militar do Brasil. Portanto, contemporâneo, por exemplo: de Glauber Rocha, de
Carlos Lamarca, Vladimir Herzog, Alex Polari de Alverga, Iara Iavelberg e
Carlos Marighela, o estudante Stuart Jones foi preso por agentes do CISA, Centro
de Informações da Aeronáutica; sediado na Base Aérea do Galeão. Assim, encarcerado
no âmbito de uma instituição militar, foi torturado barbaramente, e como se não
bastasse, em um dia fatídico, foi amarado na parte traseira de uma viatura da
FAB, arrastado pela área intramuros, do quartel em que se achava preso,
tingindo com sangue baiano as pedras daquele lastro nefasto. Dessa forma, foi
socializado por companheiros, ali também presos políticos, que o sangue daquele
jovem Revolucionário tingia de vermelho e escrevia os desafios da Luta Armada
com partes dos tecidos arrancados do seu corpo pelo calçamento daquele
labirinto de trevas. Segundo os companheiros também presos naquele inferno e
que conseguiram sobreviver, Stuart Edgar Angel Jones veio a óbito em
consequência, dos gases que era obrigado a respirar do cano de descarga do
veículo. O Poeta Alex Polari de Alverga assistiu àquelas cenas trágicas através
das grades da cela em que se achava restringido.
Tudo em prol da Manutenção da
Ordem e do Progresso; discurso positivista por, excelência, em nome do qual o
regime militar, extremamente paranoico, matou milhares de pessoas através da
OBAN-Operação Bandeirante; financiada pelas elites bilionárias de São Paulo; pelo
DOI-CODI-Destacamento de Operações de Informação-Centro de Operações de Defesa
Interna e pelo DOPS- Departamento de Ordem Política e Social. Assim é que, naquele
contexto histórico, o Estado de Direito prendia, torturava e matava por
qualquer suspeita infundada, ainda que levantada por agentes militares, ainda
que semi-anlfabetos.
Naquele contexto de
analfabetismo e truculência, narra-se, por exemplo, que agentes da Ditadura
Militar foram ao apartamento do Poeta Ferreira Gullar para prendê-lo, porém
careciam de mais informações que o incriminassem. Mas, acontece que o Poeta
estava empenhado neste estudo crítico da literatura cubista. Por isso, fazia
anotações escritas que orientassem seus estudos, deixando-as sobre uma estante
bem visível na sala do imóvel. Assim, logo que os repressores entraram na sala,
um deles que parecia ser o chefe do grupo teve a sua atenção voltada para os
papeis manuscritos; tomando-os e vociferando: “Ah! cubismo, né? Entendi!” O troglodita
ficou convencido de que poderia acusar o Poeta Ferreira Gullar de relações com
Cuba; que não tinha relações diplomáticas com o Brasil, ainda sendo proibida
qualquer viajem de brasileiros para a Ilha.
Na verdade, aquelas
instituições eram espaços em que a barbárie, a violência e a loucura atingiam o
extremismo. A propósito, segundo a cultura hippie, a profilaxia da loucura é
possível, somente carecendo do diálogo entre a Ciência e a Filosofia. Esta
pujante da Escola do Dalai-Lama. Óbvio que naquele ambiente histórico quando
não era de interesse matar, sempre por ônus de patologias mentais, segundo o
pensamento hippie, o sistema procurava aniquilar ou ferir a dignidade do
indivíduo. Foi o episódio pernicioso com que o sistema massacrou a dignidade do
Bispo Diocesano de Nova Iguaçu, Dom Frei Adriano Mandarino Hipólito, de saudosa
memória.
Dom Adriano Hipólito que
declarava abertamente jamais ter sido comunista, mas Pastor da Igreja e um
Pastor com aroma de ovelhas, foi sequestrado na sua Diocese no dia 22 de
setembro de 1976, na Baixada Fluminense, e conduzido para lugar ermo, antes,
porém, Dom Adriano lembrava-se que o automóvel em que se achava sob domínio dos
algozes passou por três vezes pela Vila Militar do Rio de Janeiro. Daquela
forma, Dom Adriano foi despido, tendo o seu corpo pintado de vermelho
possivelmente com utilização de spray e foi abandonado em uma estrada de
Jacarepaguá. A propósito, o corpo de Dom Adriano Hipólito pintado de vermelho
lembra o corpo flagelado de Jesus Cristo, banhado em sangue e a caminho do calvário.
Assim, convém pensar, que o corpo de Dom Adriano flagelado de tinta vermelha, tinha
o carro por ele utilizado para atividades pastorais, explodindo em frente ao
edifício da CNBB no Rio de Janeiro, assim com grande sacrifício, quando foi
oportuno pedir ajuda, alcançou a Residência Arquidiocesana do Rio de Janeiro
que tinha como titular o Cardeal Arcebispo Dom Eugênio de Araújo Sales. Naquele
contexto histórico de dor e sofrimento vividos por Dom Adriano Hipólito e pela
Catedral de Nova Iguaçu, que foi vítima de um atentado hediondo em que foi
colocada uma bomba no Santo Sacrário, em que se reverencia os Dons Eucarísticos,
a ponto de deixar marcas visíveis no Cálice e na Patena. Também veio a ocorrer
outro atentado em uma escrita na parede externa da Catedral, termos que nos
leva a ler: Sede do Partido Comunista.
Agora, convém esclarecer que
Dom Eugênio Sales não era considerado um bispo vermelho, comunista. Por isso,
era respeitado inclusive pelo regime militar e seus tentáculos de repressão
política. Portanto, quando uma pessoa pedia ajuda a Dom Eugênio para interceder
por um parente preso político, ele ia a Brasília avistar-se com um general
presidente da República Federativa do Brasil. A este respeito, Dom Eugênio
Sales narrava em suas entrevistas que, de certa feita, foi à Capital Federal
interceder por um jovem prisioneiro do sistema militar. O general presidente advertiu
a Dom Eugênio; “cuide da sua sacristia, que nós cuidamos do governo.” Ainda assim,
o preso foi libertado, tendo-se formado em medicina, depois de sair da prisão. Os Bispos Vermelhos mais temidos pela leitura
militar do Brasil eram: Dom Helder Câmara (defensor dos pobres e oprimidos),
Dom Avelar Brandão Vilela (criador da Oração de Domingo), Dom José Rodrigues de
Souza (Missionário Redentorista) cujo carisma é fazer o bem aos necessitados.
Dom José Rodrigues era conterrâneo do jurista Doutor Heráclito da Fontoura
Sobral Pinto), Dom Pedro Casaldáliga (o Apóstolo Peregrino do Araguaia), Dom
José Maria Pires (O Dom Pelé da sociedade paraibana) e o Dom Frei Adriano
Mandarino Hípólito (Apóstolo da Baixada Fluminense). Pedro Casaldáliga somente
não foi assassinado porque era cidadão espanhol e o Brasil não desejava
conflito com as Nações Amigas, principalmente os países usuários de línguas
românicas. A propósito da citação do nome de Dom Avelar Brandão Vilela, então
Cardeal Arcebispo de São Salvador na Bahia, é conveniente relembrar a sua
reação contra a Ditadura Militar, através da Oração de Domingo.
Dom Avelar, criando a Oração
de Domingo teve um insight pujante. O sistema militar estremeceu quando a
Oração de Domingo passou a circular, depois da Celebração Eucarística de
domingo em Salvador, mas alcançando outras regiões do Brasil. No Rio de
Janeiro, a Rádio Jornal do Brasil publicava a Oração de Domingo na íntegra e em
alto e bom som. No dia seguinte, salvo engano, a Oração de Domingo era
publicada no próprio Jornal do Brasil, o que muito contribuía para o debate e a
formação teórica do público ouvinte/leitor. Dessa forma, a Oração de Domingo
foi um golpe – embora pacífico –, porém mortal contra o autoritarismo daquela
“época de chumbo.” Assim é que as demandas militares entraram em pânico, até
porque a Oração de Domingo era edificada com uma linguagem escorreita e
clássica, estritamente equilibrada. Nesse sentido, a Língua não é uma apologia
das “armas e dos barões assinalados.” A Língua é uma Instituição social. A
Língua é um grande Legado de PAZ. A Língua é prescrita pela Lei. Portanto, a
Oração de Domingo contribuiu sobremaneira para a afirmação da identidade de uma
nação. O que pode levar os indivíduos a
uma reflexão profunda sine qua non se concentra a formação teórica do indivíduo.
Portanto, o espírito conservador, defendido por uma parte exponencial da Igreja
pensante, em que figurava Dom Eugênio Araújo Sales, então Cardeal Arcebispo do Rio
de Janeiro.
Imprescindível é tratar aqui
do Cardeal Eugênio de Araújo Sales – de muito saudosa memória – porque nunca se
ouviu dizer que ele tenha negado ajuda a quem dela carecesse. Fossem religiosos,
ateus, marginalizados, perseguidos por razões políticas, desempregados,
indigentes e etc. Tanto é que o Banco da Providência, criado por Dom Eugênio
Sales, visava a socorrer as pessoas em situação de risco indigente. Assim, é
que ajudado por Dom Eugênio Sales, Dom Adriano Hipólito, vítima da repressão
militar que o sequestrou; foi acolhido e fortalecido, ajudado e reintegrado a
sua Diocese. Ele foi aconselhado por colegas Bispos a pedir transferência;
recusou. Dom Adriano Hipólito não tinha medo de morrer, por isto retornou a
Nova Iguaçu e continuou o seu trabalho de Pastor. A propósito, ser Pastor na
Oração da Igreja implica correr riscos – inclusive de morte –, foi o caso de
Dom Óscar Arnulfo Galdámez Romero em El Salvador, de que trataremos noutra
oportunidade.
Agora, precisamos
trabalhar um pouco a Memória Pastoral de Dom Eugênio de Araújo Sales frente à
Arquidiocese do Rio de Janeiro.
Naquele
contexto histórico, um Padre que trabalhava com a evangelização de jovens
passou a ser acusado de haver desviado uma jovem que desapareceu inesperadamente
do grupo e de casa, deixando uma lacuna trepidante e especulações absurdas, por
difamações surgiam tanto por parte de expressões sociais, quanto da imprensa impensada.
Essas demandas hostis passaram a acusar a Cúria Arquidiocesana do Rio de
Janeiro, de estar sendo conivente com o Padre, protegendo-indevidamente. Então,
Dom Eugênio Sales veio a público, óbvio que através da imprensa, pediu calma e
tranquilizou as várias vozes, esclarecendo que a apuração do fato estava sendo
por ele acompanhada pessoalmente, e que a Cúria Arquidiocesana daria um
resposta justa. Dom Eugênio era muito respeitado pela sociedade carioca. Assim
é que poucos dias depois das Orações de Dom Eugênio, a jovem foi encontrada
vivendo com o namorado em um Estado do Nordeste do Brasil.
Dom Eugênio acolheu o padre e
incentivou o seu trabalho profícuo e copioso. Ainda naquele período de repressão
implacável, a um Padre italiano que trabalhava em Pernambuco foi determinado
pelo governo militar que na denominada semana da pátria, que estava próxima,
celebrasse sob o tema: “A Independência Somos Todos Nós.” Logo, o religioso
respondeu: “A Independência somos todos nós, quando todos nós tivermos casa,
alimentos, trabalhos e Justiça”. Por isso, o governo militar determinou ao
então Ministro da Justiça que expulsasse do Brasil o Padre Italiano. Ora pois, aquele
Ministro de Estado; não obstante exercer elevado cargo público na República
Federativa do Brasil, foi processado e julgado pela Justiça dos EUA por
favorecer uma quadrilha que traficava pedras preciosas, do Brasil para a
América do Norte.
O Padre Italiano, expulso do
Brasil, foi de Pernambuco para o Rio de Janeiro onde acolhido e amparado
espiritualmente por Dom Eugênio Sales aguardou a data do seu embarque para a
Itália.
O Cardeal Dom Eugênio de
Araújo Sales tinha um coração maior que o mundo em que cabiam as dores e os sofrimentos
de todos nós. Por isso, ele mandou construir unidades habitacionais na área
externa de um edifício da Arquidiocese do Rio de Janeiro, para acolher melhor e
resguardar perseguidos políticos e flagelados da Ditadura Militar. Mesmo depois
do período ditatorial no Brasil, aquelas unidades de acolhimento humanitário
continuaram a ser preservadas como marcos históricos da Memória Episcopal do
Rio de Janeiro. No entanto, as casas de acolhimento, vieram a ser demolidas por
determinação do Cardeal Arcebispo Dom Eusébio Oscar Scheide, sucessor de Dom
Eugênio de Araújo Sales na Arquidiocese do Rio de Janeiro. Com isso, demoliu-se
parte da História da Liberdade Humana, no espaço Episcopal da Rio de Janeiro, deixando
ferimentos profundos no corpo eclesial daquela Igreja Particular.
As preocupações de Dom Eugênio
para com o povo excluído, mulheres e homens, eram tão fortes que ele criou o
Banco da Providência para amparar as pessoas em situação de risco indigente.
Havia também uma Feira da Providência, promovida em lugar próximo da Lagoa
Rodrigo de Freitas.
Considerando o trabalho social
efetivo da Igreja; com o apoio logístico da sociedade carioca; enquanto que as
ações delituosas perpetradas pelo regime militar saqueavam a logística do
Estado de Direito, tornando-a delituosa. Pois que, na compleição da instituição
do Estado de Direito Carioca, a logística é patrimônio da res publica, sempre na
perspectiva de assegurar vida plena ao corpo social da humanidade do Rio de Janeiro.
Dessa forma, o apoio logístico da sociedade carioca é importantíssimo! Porém, o
Estado de Direito Carioca tem responsabilidades junto à sociedade civil, também
na área das ciência humanas, visando ao soerguimento da pessoa humana em toda
sua plenitude.
A plenitude da vida não abdica
das instituições sociais, enquanto apoio logístico preponderante na legítima
perspectiva de preservação da Dignidade da Vida.
Neste sentido, eu próprio que
escrevo estas linhas, dou testemunho: Estando residindo no Rio de Janeiro, sendo natural daqui do Estado da
Bahia, portanto, conterrâneo de Stuart Edgar Angel Jones, passei a ser servidor
do então Estado da Guanabara – antes da fusão com o Estado do Rio de janeiro – através
de concurso público.
Aí é que teve início a minha
experiência de leitura perante a realidade do Regime Militar, principalmente, através
das superestruturas, digo, das Culturas do Universo Carioca.
Naquele ambiente de trabalho,
a partir de determinado momento, passei a fazer comentários sobre a repressão
implacável do Estado, aí passei a ser perseguido de forma sistemática. Mais
adiante, tendo-me rebelado contra a corrupção e demais crimes perpetrados por
dirigentes daquele órgão estatal, as perseguições aumentaram. Então senti que
tinha que pedir ajuda. Por isso, escrevi a Dom Eugênio Sales relatando os fatos
opressivos por que passava, também pedindo ajuda. A resposta da parte de Dom
Eugênio foi imediata; logo ele mencionou o fato de que a Igreja e o Estado são
separados. Mas, ainda assim, fui encaminhado pela Arquidiocese a órgãos de
Direitos Humanos da Igreja e poucos dias depois de ter recebido a resposta do então
Cardeal Arcebispo do Rio de Janeiro, percebi que estava sendo tratado de
maneira mais pacífica e mais harmoniosa. Os trogloditas do Estado Repressivo
sabiam que eu não era comunista, talvez isso tenha contribuído, em parte, para
as perseguições cessarem. Então, passei a andar de forma mais atenciosa e grata
a Dom Eugênio Sales que salvou a minha vida. Poucos dias depois, pude construir
uma carta de agradecimento a Dom Eugênio Sales mencionando que eu estava
inclinado às leituras socialistas, como forma de resistência às opressões da
parte do Crime Organizado Oficial. Então, poucos dias depois, Dom Eugênio Sales
respondeu-me, de forma harmoniosa e paternal, admoestou-me como um pai que recebe
um filho pródigo e festeja a sua volta; a minha festa tornou-se Eucarística e
eu passei a ver o mundo dentro da perspectiva do Amor à Fé católica e da esplêndida
Cultura Carioca. Dom Eugênio me orientou a orar mais e amar mais o Rio de
Janeiro. Jamais poderei esquecer as BÊNÇÃOS que recebi da parte de Dom Eugênio
de Araújo Sales. Portanto, senti um certo alívio quando li a missiva de Dom
Eugênio Sales, creio que a Língua com que a carta foi escrita, também, me deu
força.
No Universo Cultural Carioca,
a vida é um dom admirável que muito se espraia na Cultura predominante do Rio.
Tanto é, que a Língua Carioca bem falada tem ritmo de samba e muito lembra Noel
Rosa. Isso porque, o Poeta de Vila Isabel ornamentou de tal forma a Língua
Carioca que ela, principalmente, promove a identidade do Brasil e do Rio de Janeiro.
O Rio torna-se um celeiro da língua brasileira nas suas efervescências carnavalescas
e sábias; dando a impressão de que a língua falada no Brasil foi inventada no
Rio de Janeiro e é cultura que jamais morrerá. Por exemplo: A Porta-Bandeira e
O Mestre-Sala, na cultura do carnaval, dão passos demarcados que tornam eterna
a Língua, que é inventada primordialmente, pelo Samba-Enredo; também
simbolizando o esplendor da harmonia de cores. O Mestre-Sala lembra um soldado reluzente
a salvaguardar o tesouro mais expressivo da cor da África: A Porta-Bandeira. Dessa
forma, escrevendo no chão da Marquês de Sapucaí, uma dimensão estética do Poema
da África na Arte do Samba. A Porta Bandeira, por pés ágeis e elegantes,
torna-se com o Mestre -Sala construtores da Identidade brasileira; no que diz
respeito à reminiscência da Mãe África. Data vênia, a linguagem e a Língua são
expressões preponderantes da Dignidade da Pessoa Humana na Língua que fascinou Camões
e eternizou, também, poeticamente a Manuel Bandeira não pode haver a morte. A Poesia
não morre!
Ah Pois, a ostentação pública
da Porta-Bandeira, pode conduzir o leitor desavisado, a presumir que quando se
tira “Porta,” privilegiando Bandeira, refere-se ao Poeta Manuel Bandeira. A
força do Carnaval pode vir daí. E é digno de Fé que a força do Carnaval vem,
justamente, da harmonia poética entre Mestre-Sala e Porta-Bandeira. Essa dupla
fica mais poética quando o Mestre-Sala se curva de braços estendidos, perante a
Porta-Bandeira e perante a Memória do Poeta Manuel Bandeira.
Não morrerá sem
poetas nem soldados,
A língua em que
cantaste rudemente,
As armas e os barões
assinalados...
Manuel Bandeira
O Mestre-Sala tem que ser um bailarino exímio, sobre humano. É que ele –
o Mestre-Sala – inunda a poesia de saudades, manifestadas por exemplo, na
Língua falada e escrita pelos escravos mulçumanos, que proclamaram a Revolução
Escrava da Bahia. A bem dizer, o Mestre-Sala, se pensado em termos da historicidade
mítica assas rebuscada, também, sobrepõe-se, em parte significativa, à
Mitologia Grega. Como assim? Quando o Mestre-Sala saúda veementemente a Musa
admirável, e nos leva a pensar Hesíodo o pai da Poética Alternativa: “Eu canto
às Musas.” Se o Mestre-Sala tem que cantar o Samba Enredo, para elevar a pura beleza
da nossa Musa; a Porta-Bandeira; convém recordar que os Sambas-Enredos; e há
muitos Sambas admiráveis; criados por Poetas Consagrados dos Morros e Favelas
do Rio de Janeiro. Ítacas da Odisseia Caricoca. Porque
faz parte da dança do Rio de Janeiro, o Mestre-Sala o faz com arte e beleza
contagiantes, ao contrário de Ulisses (Herói de Tróia) que não reverencia com a
elevada pureza a beleza da Musa Penélope. A propósito, não há – talvez por
razões culturais – nenhum gesto uliciano que eleve, sobremaneira a Musa. Como
faz o Mestre-Sala, curvando-se carinhosamente, perante a Porta-Bandeira. Ulisses,
aparentemente, não pretende exaltar beleza, mas fica óbvio que quer fazer sexo
com Penélope. Mas, ela não consegue reconhece-lo, para leva-lo à cama; então
cabe a uma servidora antiga na casa; a auxiliar Penélope a identificar o marido
que ela esperava, através de uma marca que lhe deixou uma fera em momento de
caça.
Penélope, cogitava às vezes, que
Ulisses teria morrido na guerra. A exemplo dos pretendentes que insistiam com
musa a tomar um dentre eles, porque Ulisses – àquela altura – já havia morrido.
Para reconquistar a esposa, Ulisses não exprime um único gesto de carinho, de
afeto que expressasse o seu amor pela cônjuge mulher. Mas, porém, a servidora
leva Penélope a reconhecer a alteridade de Ulisses, também, nas bordas de um
tecido que Penélope constrói em uma parte do dia, descosturando depois, em
lugar seguro, para ir lenta e gradativamente, enganando os pretendentes que
insistem reiteradamente. Porém, ela vai alegando que quando o tecido estivesse
pronto, escolheria um deles. Mas, acontece que Ulisses volta à Ítaca...
Se partires um dia
rumo à Ítaca
Faz votos de que o
caminho seja longo
Repleto de
aventuras, repleto de saber
Nem lestrigões,
nem ciclopes
Nem o colérico
posidon te intimidem...
Konstantinos Kaváfis
O Medo e a intimidação, na maioria
das vezes, cria situações densas, preocupantes, mas, se trabalhadas metalmente com
esmero pode-se concluir que o medo e a intimidação são mitos esfarrapados, que
muitas vezes levam o estudioso a incorrer em desassossego. Quando isto ocorre,
na prática, se deve recorrer ao espírito de prudência: “Sede simples como a
pomba, e prudente como a serpente.” Esta, a prudência, é um meio seguro de
reflexão inabalável. Isto é, agir com firmeza eficaz, entre a pomba e a
serpente, o medo se esvai definitivamente. Agora, na prática, a metáfora
Bíblica segue por uma via equilibrada: é imprescindível rejeitar a “maçã,” para
se aguardar a abundância de “leite e mel.”
Agora, nestes últimos tempos,
o Brasil viveu uma situação catastrófica. Três autoridades exponenciais da
República Federativa do Brasil, estiveram na mira de um atentado terrorista,
articulado contra a Democracia Brasileira: o Presidente da República, o Vice
Presidente e um Ministro do Supremo Tribunal Federal seriam executados se a Justiça
não fosse ágil, e eficiente. Da se depreende que, se não fossem a agilidade e a
competência do Poder Judiciário do Brasil e dos demais Poderes Constituídos,
todos nós brasileiras e brasileiros seriamos massacrados e esmagados sob os ônus
trogloditas do Crime Organizado Oficial. Isto, porque os Poderes Constituídos
são a garantia da Paz. Sem a Justiça e a Paz, um povo não subsiste ao arbítrio
hediondo. Aliás, convém refletir, nós vivemos sob a égide da ditadura militar
por quarenta anos. Portanto, somos testemunhas do período de trevas em que o
Brasil agonizou. Assim, naquela agonia perversa, foi assassinado em uma
instituição militar o jovem Revolucionário Stuart Edgar Angels Jones. Estudante
de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro.
Serrinha Bahia, 26 de
julho de 2006
*PROFESSOR
DE LITERARURA BASILEIRA APOSENTADO DO CAMPUS XXII DA UNEB, UNIVERSIDADE DO
ESTADO DA BAHIA.

Leave a Comment