Canudos à Contraluz Na Cultura Literária

DOM ÓSCAR ROMERO

 

DOM ÓSCAR ROMERO

                                                   por José Plínio de Oliveira*

 

 

No século passado, as Américas do Sul e Central passaram por amargas provações e, em consequência, a Igreja Católica sofreu algumas calamidades turbulentas. Isto, em parte, porque a Igreja fez opção preferencial pelos pobres. O que foi muito positivo!  Mas, ocorre que nem todos os pobres – já assistidos pela Igreja – fizeram opção preferencial pela Igreja. Entretanto, muitos pensadores de tendência marxista, no âmbito da Igreja, julgaram oportuno semear o joio entre o trigo. Então, foi imposta a Teologia da Libertação. Esta, salpicou vírus abomináveis de um marxismo pernicioso, principalmente entre os pobres. Assim é que os princípios daquela “Teologia Libertadora” e dita eficaz para a transformação da realidade da pobreza extrema, foi conquistando espaços nas perspectivas das Escrituras Sagradas. Logo, o marxismo foi se tornando sedutor, inclusive, nas extremidades da pregação evangélica da Igreja Católica, muitas vezes com requintes de extrema violência. Portanto, o presente trabalho escrito visa a retratar fatos representativos e extraordinários da Igreja Católica, naquele contexto social e, também, aprofundar o debate sobre o assassinato de Dom Óscar Romero em El Salvador e as trajetórias de – entre outros – de João Paulo II, de Maria Faustina Kowalska e do Povo Judeu.

Na extremidade da sociedade brasileira, a pobreza é semelhante a uma epidemia de muito difícil erradicação. Por exemplo, não há vontade política, visando a escorraçar esse mal abominável. Por isto, a Teologia da Libertação, sob certos aspectos, enfeitiçou e atraiu grandes contingentes da Sociedade Latino Americana. Porque, inegavelmente, aquela Teologia aparentava ser muito atraente e a Igreja, sempre aberta ao diálogo, tornou-se o espaço preferencial para aninhar os discursos da Teologia da Libertação. Pois que, libertar é um tema de fácil agrado para a América Latina.

Ora, a latinidade de um discurso muito simpático – inegavelmente – adentrou à Igreja Católica Apostólica e Romana, na América Latina, e quando se deu Fé; aquela ideologia já havia-se enraizado em alguns setores sociais da Igreja. Isto não quer dizer, de modo algum, que a Igreja tenha sido tributária daquele discurso teológico, porque, desde a sua fundação que Igreja se preocupa muito com a vida e a questão social. Portanto, a Igreja é Santa e Pecadora, mas não se ensurdece diante dos flagelos da pobreza. Isto é tão certo que, as raízes de filiação bíblica da Igreja, nos Antigo e Novo testamentos, visam à melhoria da transformação da sua própria realidade, também, histórica. A propósito, narra-se que um imperador romano mandou uma mensagem exigindo da Igreja Católica que entregasse as suas riquezas ao Império Romano. Então, os líderes da Igreja reuniram todos os pobres assistidos por ela e os conduziram ao príncipe romano. “Eis a riqueza da Igreja Católica!” Então o imperador romano voltou atrás, pois que o império não tinha interesse algum em socorrer a pobreza.   Aliás, têm sido os homens de Fé que aprofundam as suas convicções em uma prática serena de pregações evangélicas, visando à socorrer aos mais necessitados de Nossa Humanidade. A este respeito, Estuda-se as Obras Espirituais de Maximiliano Maria kolbe – um Padre Polonês, Patrono da Milícia da Imaculada –, que preso em um campo de concentração do nazismo, ofereceu-se para morrer em lugar de um pai de família que o nazismo havia condenado a morrer de fome. Na ocasião, o condenado chorava desesperado. Outro exemplo, entre tantos outros, é o de Afonso Maria de Ligório – Patrono da Congregação do Santíssimo Redentor – que sendo advogado e de família abastada, perdeu uma causa em um tribunal da Justiça Italiana, porque o juiz havia sido comprado. Portanto, em face desse lamentável episódio, Afonso Maria de Ligório fez opção por abandonar a advocacia e trabalhar com pastores de cabras, abandonados e analfabetos. Logo, evangelizando-os e alfabetizando-os. Pois bem, esses exemplos revelam a Identidade Espiritual da Igreja, tornando-a fonte de Mistérios Espirituais. A propósito, quando a Eucaristia é Celebrada, o Presidente da Celebração – ao Consagrar as Espécies – proclama: “Mistério da Fé e do Amor.” Óbvio que, o cristão submete-se por vontade própria, ao Mistério Celebrado, deixando nas Mãos de Deus a própria peregrinação Espiritual da Igreja, sobre que o crente não tem nenhuma dominação, mas submete-se à obediência.

Obedecer, em prol da Espiritualidade Universal. Portanto, a própria denominação Católica conduz ao prisma dessa Espiritualidade, o que não pode ser, por exemplo, de tendência sindical, porque o domínio sindical é de caráter Estatal e o trabalho da Igreja Católica é Espiritual. Por isto que, no Brasil, Igreja e Estado são separados. De fato, a demanda sindical é material e, portanto, não pode ser Espiritual. Esta Espiritualidade, poderia levar as políticas sindicais a correrem o risco de sucumbir, mergulhando nas trevas do hemisfério torpe, sacrificando os trabalhadores sindicalizados. Ora, o sindical é político, e não se circunscreve no âmbito puramente Espiritual, é este de domínio misterioso que só o Espírito Santo domina, pois a Igreja é o Corpo de Cristo, principalmente, celebrado na Eucaristia. É próprio do Mistério Místico. Portanto, naquele contexto da Teologia da Libertação, as relações entre segmentos do clero tornaram-se tão fragmentadas que um Bispo chegou a declarar que “Igreja não é sindicato.” Esta afirmação deixa claro que o Universo Católico e o Mundo Profano, distanciam-se para favorecer as relações pacíficas entre os pensamentos distanciados. Sendo que, a bem dizer, um dos maiores testemunhos da Mística-Contemplativa contemporânea vem de Santa Maria Faustina Kowalska (Helena Kowalska na Pia Batismal); uma religiosa polonesa oriunda do meio rural; que pela sua simplicidade de pessoa humilde, surpreendeu o mundo com as suas revelações profundas. A então Helena Kowalska recebeu o primeiro chamado muito cedo, na infância. Daí em diante, ela passou a cuidar das coisas espirituais, até que em 1912 ouve na alma o primeiro chamado explícito à perfeição cristã. Até que um dia, já moça, estando em uma festa com uma irmã biológica e pessoas da comunidade, recebeu na sua alma a determinação de deixar a festa e seguir para Varsóvia, para ingressar em um convento. Para tanto, na manhã seguinte ela chega a uma Igreja para avistar-se com um Padre, pedindo orientações. Imediatamente, o Padre a encaminhou à casa de uma família paroquiana, onde ela trabalhou como empregada doméstica; sendo bem tratada; até ingressar em um convento. Portanto, ainda Helena Kowalska dirige-se à Congregação de Nossa Senhora da Misericórdia. Desse modo, ela vai para o Noviciado em Cracóvia.

Assim é que Irmã Faustina toma o hábito religioso e esclarece o onomástico de Irmã Maria Faustina. Recebendo o hábito, ela desmaiou. Convém lembrar que Maria Faustina era de compleição física franzina e, além disso, ela trabalhou muito para alcançar a vida consagrada em um convento. A Irmã Religiosa que lhe ofereceu o hábito declarou que “Heleninha” desmaiou diante do hábito.            

Ainda trabalhando para ingressar em um convento, fica muito claro e muito mais curioso o fato de que a Irmã Faustina era muito cuidadosa e precisa na construção dos seus escritos. Assim, cuidadosa e segura de seus relatos, é que naquela festa, de posse de pequenas coisas, toma um trem para Varsóvia. Aí é que vem um grande episódio espiritual. Ela narra em seu Diário que, chegando em Varsóvia, viu as pessoas que desciam do trem indo para as suas casas. Então ela foi conduzida – certamente pelo Espírito – a pernoitar em um lugar santo, que ela reserva-se ao direito de não revelar. Foi um Milagre Extraordinário! Em sua noite de recolhimento. Dessa forma, há um hiato, um vácuo entre o momento em que ela chega a Varsóvia e, na manhã seguinte, faz uma visita a uma Igreja, em que encontra um Padre a quem pede ajuda.      

 A leitura do Diário de Santa Faustina deixa muito claro que, para o Crente Católico, a Igreja está no centro dos nossos corações. Posto que, se o coração do crente em Jesus Cristo for atingido com violência, a Igreja também padece. Foi o lamentável episódio em que ocorreu com Dom Óscar Romero, atingido por disparos de arma de fogo no centro do seu coração, quando ele Celebrava a Eucaristia. Naquela ocasião, Dom Óscar Romero, erguia o Cálice, diante da Patena sobre o Altar Mor; quando foi ferido pelos tiros deflagrados contra o seu coração, O Cálice tombou sobre o Altar Eucarístico e o corpo de Dom Óscar prostrou-se   sobre o Altar. Naquele momento o seu sangue uniu-se ao Sangue de Jesus Cristo, consagrado na espécie. Uma Mística Profunda e Santificada.     

As profundidades das revelações de Santa Maria Faustina e do Santo Padre Pio, trouxeram elevada tranquilidade para o caráter Místico da Igreja. Neste sentido, é muito óbvio que além das revelações alcançadas, também ocorreu uma certa divisão sutil em que parte do clero passou a ser considerado Conservador – no sentido de salvaguardar os dons Espirituais da Igreja, que tem o seu carisma voltado para os mais pobres – e o clero dito progressista, no sentido propagar a social-marxista e conduzir os seus seguidores na direção de uma emancipação política. Esta forma de politicidade, em detrimento da espiritualidade, levou a Sagrada Congregação Para a Doutrina da Fé a pedir um silêncio obsequioso, para impedir que a Igreja fosse escandalizada, o que já vinha ocorrendo com os fatos sexuais atribuídos a certos integrantes da Igreja Católica.

Para evitar escândalos, a Igreja Católica já trabalha com problemas de elevada gravidade, perpetrados por parte do clero dito progressista; com as questões de abusos sexuais de crianças, jovens e adolescentes. Aqui no Nordeste do Brasil, a Arquidiocese de João Pessoa, no Estado da Paraíba, teve que adotar medidas radicais para conter a escalada dos abusos sexuais, principalmente, contra crianças e adolescentes.  Aliás, a Justiça do Trabalho chegou condenar a Arquidiocese de João Pessoa a indenizar pessoas exploradas sexualmente por membros do clero. Principalmente, abusos de menores de idade, por parte de um lado promíscuo e de uma parte abominável do clero arquidiocesano. Mas, o que é mais curioso é que muitos defensores da Teologia da Libertação escancarada não ficaram na Igreja. Assim é que, muitos padres envolvidos com aquela terrível “teologia,” casaram-se, amasiaram-se e passaram a seguir caminhos tortuosos. E muitos daqueles devotos da Teologia da Libertação chegaram a declarar apoio irrestrito a transgressores morais, legitimando as práticas de atrocidades praticadas contra a Igreja. Daí veio os esforços da clero dito conservador, inclusive, favorecendo a uma dicotomia e definindo os espaços laboriosos, para melhor organizarem as instâncias da Fé.  

O labor com que a dicotomia foi aprofundada estabeleceu uma forma de separação entre Conservadores e Progressistas. Nesta separação, portanto, eleva-se a dignidade de Dom Óscar Arnulfo Romero Galdámez. Então Arcebispo de El Salvador, mas conhecido como Santo Óscar Romero; assassinado em 1980, quando presidia uma Celebração Eucarística na Capela do Hospital da Divina Providência em El Salvador. Convém refletir então, que Dom Óscar Romero, por muito tempo, foi considerado um Bispo Conservador. Principalmente, levando-se em conta o seu esmerado zelo para com a Igreja Católica Salvadorenha. Porém, com a situação de miséria e pobreza estrema que sacrificava os mais pobres de El Salvador, em consequência da Guerra Civil que assolou aquele Povo, Dom Óscar Romero teve que assumir uma posição em favor dos pobres.

A atuação de Dom Óscar Romero em defesa da pobreza excludente e reconhecida nas letras do Evangelho, chegou às proximidades da Teologia da Libertação e incitou aquele sistema de governo a confundir aquele Arcebispo, defensor da humanidade – de muito Saudosa Memória – como um agente marxista da Teologia da Libertação. Foi um equívoco terrível, porque Dom Romero lia aspectos evangélicos naquela Teologia, repudiando a vinculação marxista nos âmbitos da Igreja. Todo o seu trabalho exaustivo, restringia-se em defender as Escrituras Sagradas, cuidando dos mais pobres e abandonados, por que ele veio a sacrificar a sua própria vida.

É muito triste saber que assassinato de Dom Óscar foi de uma covardia exacerbada. Ele veio a óbito no dia 24 de março de 1980, naquela Missa que celebrava. Aliás, convém repetir para reflexões que naquele momento da celebração, estava Dom Óscar Romero na Oração Eucarística, quando foi atingido por, pelo menos, dois disparos deflagrados pelo assassino que atingiram o seu coração de Pastor da Igreja em El Salvador. Dom Óscar Romero, Consagrava as Espécies do Pão e do Vinho, quando um veículo de cor vermelha postou-se na porta do pequeno Templo da Palavra de Deus. E quando o Celebrante ergueu o Cálice, o assassino atirou. Assim, ferido mortalmente, o Cálice com a Consagração do Sangue tombou sobre o Altar e Dom Óscar Romero caiu com parte do seu corpo sobre aquela Mesa Eucarística. Naquele lamentável episódio de assassinato de um Arcebispo, o sangue de Dom Óscar Romero misturou-se com o Sangue de Jesus Cristo. Aquela Comum União – Comunhão – talvez tenha sido a primeira na América Latina. Assim, com o Martírio de Dom Romero, o Sangue de Jesus Cristo, unido ao sangue do coração de um Pastor da Igreja Católica, pregando o Evangelho. Foi um grande Milagre! Isto é, o sangue vertido e unido ao Sangue de Jesus Cristo, não deixa de ter sido um Milagre. A morte de Dom Óscar Romero foi um grande Milagre. Portanto, nunca se ouviu dizer que um Pregador do Evangelho de Jesus Cristo tenha passado por aquela difícil experiência, principalmente na América latina. Em que o assassinato de Dom Óscar constrangeu a América Católica. Nesta perspectiva de leitura, fica muito óbvio que muitos Padres, Bispos, Arcebispos, Religiosas e Religiosos tenham sofrido atentados nesta parte da América do Sul. No Brasil, a Religiosa de origem estadunidense, naturalizada brasileira, Irmã Doroth Mae Stang, mais conhecida como Irmã Doroth, foi assassinada covardemente no Pará. Também, a forma como Dom Óscar Romero foi assassinado foi cruel e extremamente covarde. Por isso, as nossas Orações têm sido de “transformar a dor em compromisso.”

De fato, a propósito do compromisso, convém voltar a então Helena Kowalska para melhor esclarecimento sobre a realidade da Igreja Católica na Polônia. Aliás, a Polônia tem sido uma grande nação cristã, de testemunhos relevantes. Nação em que foi Cardeal Arcebispo, Karol Jószef Wojtyila. Ele é de Memória Admirável. Aliás, foi ele um grande defensor da Divina Misericórdia; nomeado pelo Vaticano para presidir o Processo Informativo sobre a Irmã Helena. Em tempo propício, na condição de Sumo Pontícife, João Paulo II escreveu e publicou a Encíclica Dives In Misericórdia, instituiu os Mistérios Luminosos do Santo Terço – que podem ser rezados às quintas-feiras – e no dia 23 de abril de 1995, celebrou pela primeira vez a Festa da Misericórdia. Ainda em outro momento de sua Peregrinação Apostólica, João Paulo II visitou a Síria e compareceu a uma Mesquita Árabe para um momento de confraternização com o Povo Mulçumano. Quando ele alcançou a entrada da Mesquita, um religioso árabe foi ao púlpito e entoou um cântico de recepção. Naquela oportunidade, o Papa, mesmo fragilizado, em consequência do atentado de que foi vítima e que foi um dos Segredos de Fátima, visitou o túmulo de um Patriarca e, logo após, foi convidado a ocupar um espaço de Honra, para proclamar o seu discurso. Ele estava muito trêmulo, mesmo assim, leu grande parte do texto, mas os tremores o afligiam e ele teve que transmitir a tarefa ao Arcebispo de Damasco que, o acompanhava. A propósito, não se sabe se a Igreja Católica, por ocasião das visitas pontifícias pelo mundo, aclamou o Papa com tamanha reverência, como o Povo Mulçumano, naquele dia de Confraternização. De fato, convém recordar que a Mesquita Árabe – conforme o documentário publicado – estava ocupada por um público atencioso; muitos daquele público tinham a cor da África.                 

 

 A este respeito, a África tem sido vítima da covardia hedionda e de muitos martírios. Desde o tempo dos Apóstolos, (Vide Estevão) a covardia extrema tem causado grandes padecimentos à Igreja –. Por exemplo, nos últimos dias foi assassinado em Moçambique o Bispo Dom Osório Citora Afonso. O seu Martírio tem escandalizado o Povo de Deus daquela parte da África. A CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) pronunciou-se, lamentando o assassinato de Dom Osório. E o CELAM (Conselho Episcopal Latino Americano), deve tomar uma posição em face daquele triste episódio. Dessa forma, a posição da Igreja Católica diante desses atentados é orar e perdoar. De fato, a providência da Igreja diante das agressões que sofre é o PERDÃO.

A cultura sagrada do PERDÃO, desde eras remotas, tem orientado o Povo de Deus – principalmente o Clero – a não revidar diante de fatos ofensivos, por exemplo, injúrias, calúnias, atentados, homicídios e outros delitos. Nesta perspectiva de perdoar, João Paulo II visitou o jovem que praticou um atentado contra ele, Perdoando-o. Logo, o Perdão e a caridade têm sido notáveis testemunhos de João Paulo II. Por exemplo, ainda seminarista e aos vinte quatro anos de idade – por foça da Caridade – salvou a vida de uma menina judia em uma estação de trem. A menina, posteriormente, tornou-se a senhora Edith Zierer em Israel. Ela, na infância, havia sido submetida a trabalhos forçados no campo de concentração nazista de Czestochowa. A sua família foi assassinada e ela escapou sozinha entrando em um vagão de trem cheio de carvão, desembarcando na estação de Jedrzejów. A menina Edith não conseguia andar e, em consequência do seu estado de saúde precária, ficou deitada por fraqueza na plataforma da estação de trem. Então, o seminarista Karol Józef Wojtyila passando pela estação viu a menina doente e faminta, logo procurou ajuda-la. Ele saiu por um momento e retornou trazendo pão, queijo e chá quente. Depois, tomou-a sobre suas costas e carregou-a por três quilômetros, onde ele a apresentou a seus amigos judeus, para que a menina passasse a receber tratamento, alimentação e demais cuidados.

Assim, é que por volta dos 13 anos de idade, Edith pediu para ser conduzida à cidade de Cracóvia. Dessa forma, ela, ainda criança, não deve ter tido contato direto com a cidade de Cracóvia. Pois que, criança e prisioneira em um dos campos hediondos de Hitler, juntamente com pessoas da sua família, foi submetida a trabalhos forçados. Porém, a inspiração por Cracóvia deve ter sido proclamada por familiares ou por Judeus prisioneiros. Esses dados são curiosos e interessantes; porque Helena Kowalska quando foi chamada para consagrar-se à vida religiosa, proclamando a sua vocação cristã, teve que ir para Cracóvia; assumindo o seu noviciado, a sua tomada de hábito e onomástico. De fato, a cidade de Cracóvia parece ser o Coração Espiritual da Polônia. O certo é que esse Coração está aberto para acolher as vocações. Além disso, o Coração de Cracóvia está dividido em duas áreas distintas: uma diz respeito ao Judaísmo, a outra ao Cristianismo; convivendo pacificamente. Isto é tão certo que, Irma Faustina quando adoeceu, vivendo na clausura de um convento, foi tratada por um competente médico judeu. Daí se pode depreender que, o então seminarista Wojtyila vinha de uma cultura polonesa de respeito profícuo e pleno para com a HUMANIDADE. Além disso, Cracóvia, que é uma cidade pacífica, percebia os judeus como parentes de Jesus Cristo.

Ainda, a respeito da cidade de Cracóvia, a menina Edith teve um insight espiritual promissor. Talvez, ela tenha associado Cracóvia a Jerusalém. E a respeito de Jerusalém, como terra e povo judeu, é muito oportuno recordar a obra literária, Minha Terra e Meu Povo, da autoria do Dalai-Lama. Nesta Perspectiva de leitura, convém lembrar que a Polônia não faz acepção de pessoas, tendo uma certa conotação com o Tibete, o teto do mundo. De fato, Edith queria ir para Cracóvia para encontrar uma Paz Profunda, sem nenhuma restrição de cunho interior. Algo parecido com a cultura tibetana. Em síntese; Cracóvia está para a Polônia assim como Jerusalém está para Israel. Jerusalém é uma herança de Paz Profunda e de unidade indivisível e inatacável para os hebreus.

Houve uma era em que a Polônia teve o seu território repartido entre a Rússia, a Áustria e a Prússia. Foi uma era difícil para os poloneses. No entanto, eles concentraram-se na defesa das suas identidades. Estas, tornaram-se fecundas, na medida em que eram cultivadas sem nenhuma trégua. Naquele contexto de sérias dificuldades, a Religião Católica serviu de força espiritual para a reconquista do território polonês. Portanto, trabalhando em prol da (re)unidade do seu território, os poloneses foram exitosos reconquistando o espaço integral de sua terra – em termos da identidade cristã –, procurando humaniza-la em face de uma humanidade profícua. Do mesmo modo, Israel concentra a identidade judaica e conclama a sua defesa para garantir a segurança identitária do seu povo.

A identidade, em face da sua proficuidade elevada, lembra a Identidade Hebraica de Abraão, quando ele saiu da cidade de Ur dos Caldeus – no atual Iraque – para viver em Canaã, território hebreu. Portanto, a Fé de Abraão também, transformou aquela Terra Prometida em uma herança de Paz. Onde emana “leite e mel,” tornando-a um grande testemunho que outras nações do mundo procuram incorporar. Por exemplo, a Polônia de Karol Wojtyila que expressa o seu testemunho de uma Fé próxima a de Abraão. Agora, o fato deste Patriarca Hebreu ter saído da cidade de Ur dos caldeus, torna os iraquianos parentes dos judeus?

Principalmente, porque a cidade de Ur, que foi um centro muito importante no Oriente Médio, inicialmente, teve uma identidade suméria. Nas eras em que foi ocupada pelos sumérios, a cidade de Ur foi uma espécie de pérola da Mesopotâmia, dado ao seu grande desenvolvimento. Entre outras conquistas; os sumérios inventaram a roda. Essa invenção deve ter-se inspirado nos astros celestes, por exemplo, no Sol e na Lua; pois que, os povos daquela parte do Oriente sempre cultivaram excelentes relações com a Astronomia – a mais antiga das Ciências –. Para a melhoria da realidade Humana, a roda assegurou ao homem, depois de tempos remotos, meio de locomoção e velocidade. Logo, é surpreendente, o fato de a roda ter sido inventada em um contexto de Oriente Médio, também espaço da inteligência dos povos semitas. Isto porque, o automóvel, principal meio de transporte da era contemporânea, tornou-se imperador da roda, ampliando o mercado de combustíveis. Dessa forma, o Estreito de Ormuz passa a ser uma artéria marítima no Oriente Médio, que infectada pela guerra ameaça estrangular as rotas das rodas, principalmente, no Mundo Ocidental. Assim é que, a artéria marítima de Ormuz aparenta oscilar entre sístoles e diástoles. Em um momento se abre e deixa circular os navios petroleiros, em outro momento se fecha às possibilidades de navegação. Agora, o que é mais curioso é que, na maioria dos casos, o automóvel é movido por combustível fóssil, extraído do petróleo, sendo o Oriente Médio, sem dúvida, o maior produtor de petróleo do planeta. Ou seja, o povo que inventou a roda, também, passou a comercializar combustíveis petrolíferos, para fazer as rodas girarem.

O Planeta Sumério veio a sucumbir, dando lugar aos Caldeus, povos semitas. A Humanidade Semita levou Abraão a deixar a cidade de Ur dos Caldeus, sua Terra e sua Parentela, para empreender uma longa marcha com destino a Canaã. Dessa forma, quando Abraão – o Patriarca Hebreu – deixou a cidade de Ur dos Caldeus, ela começou a declinar a ponto de não subsisitir às ações corrosivas dos tempos torpes. É pena não haver uma produção escrita sobre os ancestrais de Abraão; pai, mãe, avôs, avós e outros parentes próximos em Ur. Mas, todavia, convém pensar que muito antes de Abraão – que acreditou em um só Deus – os povos antigos do Oriente Árabe deificavam, por exemplo, os astros celestes e até construíram templos para adoração desses entes; elaborando formas de interferências na própria natureza; assim é que, depois de Abraão, os povos caldeus promoveram mudanças nos cursos dos rios Tigre e Eufrates e, em consequência, os avanços das areias do deserto foram, gradativamente, soterrando aquela cidade, a ponto de tornar as suas ruínas,  moradas de répteis e chacais. Ora! Os chacais e os répteis são espécies da fauna desértica que têm como habitat as ruínas de cidades de eras remotíssimas, assim como os areais dos desertos também servem de espaços onerosos em que subsistem animais perigosos. Sendo assim, as interferências no sistema ecológico, sem o devido controle, levaram os agentes de interferências na natureza a destruir o berço de uma civilização elevada para aquela época. Porém, a propósito das ameaças de destruição de Ur dos Caldeus, é a Humanidade de Abraão que se espalha pelas “Terras Prometidas.” Fazendo a descendência de Abraão mais numerosa que as areias do mar, vencendo chacais e répteis, e povos adversários. Portanto, pai daquela Humanidade Semita, Abraão tem o mérito de haver fundado uma próspera civilização hebraica nas áreas de Canaã. Assim é que, a Humanidade de Karol Wojtyila, além de Abraão, sempre o levou a ter uma grande relação de amizade para com o Povo Judeu, auxiliando-o a sobreviver a todas as formas de crueldades nazistas.

Um povo saído dos braços de Abraão vai povoar e encantar a Europa de Karol. Os filhos de Abraão, não obstante os padecimentos que enfrentaram durante o nazismo, conseguiram subsistir a todas as formas de repressão, em prol da dignidade do mundo e do soerguimento de Israel; como sementes da Civilização Hebraica. Assim é que, as relações profícuas de amizades profundas na Polônia de Karol Wojtyila – inclusive, salvando a vida de Edith Zierer – levaram muitos dos jovens judeus a estudarem na mesma escola que Karol estudou. Ainda participando de brincadeiras – desde que permitidas pela Tradição Judaica – e jogos de futebol. Naqueles jogos, muitas vezes Wojtyila jogou no time dos seus amigos hebreus.   

Passados muitos anos, a senhora Edith Zierer, residindo em Israel, leu em um jornal a eleição pontifícia de João Paulo II, ela chorou emocionada. Em uma outra oportunidade ela esteve diante de João Paulo II que visitava Israel. Naquela ocasião, diante do Papa, ela eclodiu em lágrimas. Então, perguntaram a João Paulo II a respeito do resgate de Edith, ele respondeu que não se lembrava mais. Portanto, nesta perspectiva de estudo, a propósito do resgate da então menina Edith, Israel teve um papel preponderante na reedificação das alteridades massacradas pelo nazismo. Dessa forma, Israel é para as pessoas egressas dos campos de concentração, que perderam pais, parentes e amigos, uma estrutura familiar. Israel acolheu as pessoas sobreviventes dos massacres como um Pai, semelhante a Abraão. Portanto, a propósito de Israel pode-se dizer com segurança: Aba Pai! De fato, este Pai passou a ser a grande família das pessoas que perderam: pais, mães, avós, irmãos, irmãs e outros parentes, assassinados nos antros abomináveis da morte nazista. Neste sentido, há casos de pessoas que perderam todos os entes queridos, nos campos de concentração e somente recuperaram a segurança de família em Israel. Portanto, do ponto de vista geopolítico Israel é um Estado. Do ponto de vista HUMANO, Israel é uma Grande Família.

A bem da verdade, a meritocracia familiar do soerguimento de Israel – depois da Segunda Guerra Mundial – cabe à diáspora judaica. De fato, os esforços do Povo de Israel não foram em vão. Israel pavimentou as fraturas morais, físicas e psicológicas que o antissemitismo deixou nos corpos vitimados pela dor da Tragédia Humana. Desse modo, o Povo Judeu tem um compromisso com a sua Pátria, inclusive, protegendo-a de todas e quaisquer formas de agressões e, também, de atrocidades morais. A propósito das atrocidades morais, não é de bom alvitre que Israel sirva de território para as realizações de “paradas.” Inclusive paradas de conotação sexual, sensual, “manifestações espúrias” e “concentrações de natureza antissemita.” Neste sentido, diante de desvios moralmente sismológicos, o Judeu tem que gritar em defesa da Santidade de sua Terra, se o Judeu não gritar o seu corpo ficará marcado. 

As pessoas que escaparam da morte e ajudaram a reerguer o Estado de Israel, por exemplo, a primeira-ministra Golda Meir e o ministro da defesa, general Moshé Daian, assumiram um compromisso com a Verdade Judaica. Esta Verdade ajudou a desfazer falsas revelações sobre o extermínio em massa de um Povo sedento de uma Justiça Universal.

A universalidade da Justiça ajudaria a esclarecer pontos obscuros da crueldade de Hitler. Este facínora, perpetrou todas as formas de injúrias e calúnias contra o Povo Hebreu, visando a corromper e trazer para o seu lado o povo alemão, não esclarecido, submetendo-o ao engodo e à ilusão de uma falsa teoria de uma etnia superior. É dessa forma de conscientização, que muitas pessoas que retornaram da Diáspora Judaica, contribuíram para salvaguardar a plenitude da Verdade Judaica, também, no sentido de identificar indivíduos dos quadros nazistas que atuaram com muita crueldade, contra o Povo Judeu, nos espaços do campos de concentrações da Alemanha Nazista. Por isso, coube aos sobreviventes do nazismo esclarecer Verdades Irrefutáveis.  O que muito auxiliou na reconstrução histórica do Povo de Israel.

A história de um povo é fundamental para a construção de sua identidade. Assim é que chegamos ao fim deste trabalho escrito, peregrinando do assassinato de Dom Óscar Romero às trajetórias de Karol Józef Wojtyila e de Maria Faustina Kowalska.

 

                                                        Serrinha, Bahia, 14 de agosto de 2006.

 

*PROFESSOR DE LITERATURA BRASILEIRA, APOSENTADO DO CAMPUS XXII DA UNIVERSIDADE DO ESTADO DA BAHIA – UNEB. 

 

 

 

 

 

 

        

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